Os Pontos Negros celebraram 20 anos de carreira no B.Leza e passaram a sua discografia a pente fino, num concerto que foi da velha guarda aos singles novos em uma hora e meia bem suada.
Os Pontos Negros celebram, em 2025, 20 anos de carreira, por causa do “infame álbum da “Mini-Saia”” que, conforme se pode ler no site da Flor Caveira, “será sempre o verdadeiro primeiro álbum d’Os Pontos Negros”. Eu só chegaria à banda de Queluz uns anos mais tarde, já depois de um gigante da indústria ter pegado neles e de terem posto cá fora três maravilhosos discos onde chegávamos pelo bom rock garageiro, mas onde ficávamos pelo sentido de humor sagaz, pelo olhar crítico sobre a vida de um jovem adulto na cidade e pelas excelentes referências culturais que revelavam que Jónatas, Filipe, Silas e David eram, acima de tudo, quatro rapazes com extremo bom gosto. Digo ficávamos, mas permitam-me corrigir o tempo verbal: ficamos. Ficamos porque a verdade é que dei por mim numa noite de quinta-feira, em novembro de 2025, num concerto cheio, a cantar, dançar e mochar ao som das mesmas canções, no meio de uma plateia tão ou mais entusiasmada do que eu por rever um dos melhores projetos que a Flor Caveira pariu. Era como se fosse ainda 2012, o Soba Lobi tivesse acabado de sair, e o hiato que engoliu a banda nunca tivesse acontecido.
O concerto começou e estávamos bem mais à frente do que aquilo que tinha prometido ao meu grupo (“não, não, também não quero ficar muito à frente” – quem é que eu queria enganar? Claro que eu queria ficar muito à frente). Abriram o concerto como abriram o EP de 2007, com “Inês” e só à segunda canção, “Senna”, é que me lembrei que era suposto tomar algumas notas para mais facilmente produzir a crónica que agora vos apresento. Esta revelou-se uma tarefa um tanto ou quanto complicada. Primeiro, porque a setlist tinha 25 canções (sim, 25!), o que não deixou muito tempo para grandes pausas entre músicas; e depois porque cada canção era um novo hit, recebido com mais emoção do que o anterior pelo público que ia perdendo a timidez. Se as minhas notas sobre o novo single “Hipnotizado” foram interrompidas quando soaram os primeiros acordes de “Conto de Fadas de Sintra a Lisboa” e deixaram de estar reunidas as condições necessárias para uma apreciação crítica e racional do que ali se passava, mais para a frente, o que eu tentei escrever sobre “Gabriela” teve de ser resumido quando dei por mim bem no meio de um moche.
A verdade é que não vale a pena tentar alongar demasiado a minha resenha muito pouco imparcial daquela noite do B.Leza. Foi um excelente concerto onde Os Pontos Negros, que estão ótima forma, juntaram, num cocktail quase perfeito, uma setlist com canções de todos os seus discos, mesmo aqueles que só os “da velha guarda” conhecem (pausa para referir a alucinação rock que foi a aparição de Samuel Úria a tocar harmónica em “Ovelha Perdida”). Que maravilha que foi voltar a “Magnífico Material Inútil” e à profética “Lisboa, Não Passas Deste Inverno”. Cantar “Doutor, Preciso de Ajuda” e acompanhar com palmas o refrão de “Amor, É Só Febre”. Já perto do fim, no encore apoteótico em que dei por mim novamente num moche que desta vez incluía o próprio Samuel Úria, e entre mais alguns hits como “Tempos de Glória” e “Armada de Pau”, a banda agradeceu o carinho com que ali foram recebidos, dizendo que aquela noite ficaria com eles para sempre. São 20 anos de uma carreira que se prevê que continue por mais uns tantos, vejam-se os estupendos novos singles, “SOS” e “Hipnotizado”, pelo que faço votos para que não sejam precisos outros 13 anos para fazer moche ao som destas canções que, para mim, já são de estimação. Em “Cola-me no Chão”, Filipe canta “começar a ler poesia e envelhecer com mestria, envelhecer com mestria” e ouvir estes versos naquele concerto fez-me todo o sentido. Diria que todos os que estiveram presentes na festa dos 20 anos d’Os Pontos Negros em Lisboa concordarão que o objetivo traçado no distante ano de 2008 está a ser cumprido exemplarmente.
Fotografias por Iolanda Pereira
















