Um disco delicioso que nos veio parar ao colo, Momoko é cativante e belo e expressivo e será mais uns quantos adjectivos superlativos que agora não me ocorrem.
Escrever sobre um disco de jazz é sempre uma tarefa ingrata, e por norma fujo dela a sete pés. Talvez porque o jazz seja só mais uma etiqueta, uma prateleira para se colocar lá sonoridades mais fora da caixa, ou quando só não conseguimos explicar aquilo que verdadeiramente acontece quando o som nos entra nos ouvidos. Mas eis que aparece um disco como este Momoko, de Momoko Gill, e a questão volta a colocar-se: mas isto é jazz? Ou é outra coisa qualquer que passou pelo jazz, apanhou boleia de outros mundos e decidiu não prestar contas a ninguém?
Confesso já: nada sabia sobre esta senhora antes de carregar no play, mas por vezes é assim que o deleite ataca mais não é? O ser surpreendido é parte importante da experiência de audição de música (e noutras experiências da vida em geral). Se quiserem que isso também seja uma variável a ter em conta na vossa, passem à frente do resto do texto, ouçam a música antes, porque é o meu trabalho colocar nesta crónica alguma informação (afinal de contas, aqui no Altamont somos profissionais).
Momoko Gill chegou da vibrante cena londrina, um ecossistema onde o jazz contemporâneo deixou há muito de ser uma linguagem fechada sobre si própria para se tornar num ponto de encontro entre o soul, a electrónica, o hip-hop, o dub e todas as pequenas mutações que acontecem nos subterrâneos da cidade (já temos conhecido vários casos que dali saíram, Shabaka Hutchings à cabeça). Baterista de formação, compositora, produtora e cantora, Gill é um daqueles raros casos de artista que controla todos os pontos da comunicação: o ritmo, a textura e a palavra.
E ritmo é algo que não falta em Momoko. Há grooves, há ambientes, há longos momentos de suspensão quase hipnótica. Pode-se acrescentar qualquer outro ingrediente (um queijinho e um copo de vinho fresco, porque não?) porque a atmosfera rítmica criada, seja ela jazz ou não, vai sempre ser capaz de fazer sentir alguma coisa a quem escuta, dança, se perde num festival até aos seguranças chegarem para avisar que acabou. É música boa para a cabeça, para o corpo e para os pequenos desvios da alma.
Como baterista, Gill sabe que o tempo pode ser feroz num instante e quase desaparecer no seguinte, mantendo sempre uma presença invisível. Essa capacidade de perceber o que colocar e o que deixar em branco na pauta faz parte do seu ADN. Logo em “No Others”, demonstra uma mestria impressionante na caixa, envolvida por uma paisagem que nos remete para um clássico trio de jazz. Mas é a sua voz frágil, quase tímida, sempre à beira de recuar, que acaba por se tornar o verdadeiro elemento de ligação do disco.
Em “Shadowboxing”, aproxima-se de um território mais próximo do trip-hop (olá Portishead Live in NYC), enquanto “Test A Small Area” surge como uma estranha e belíssima anomalia rítmica. Pelo meio aparecem colaboradores de luxo, as misturas de Matthew Herbert acrescentam novas camadas de detalhe, mas é em “2close2farr”, quase uma confissão sussurrada, que se percebe o verdadeiro centro deste álbum: a vulnerabilidade.
Well, I′m still not sure
If this is right for us
But somethin’ about you
Keeps me comin′ back to you
No fim, talvez a pergunta inicial continue sem resposta. Será Momoko um disco de jazz? Talvez, talvez não, já pouco sabia antes, pouco fiquei a saber depois. Mas, numa época em que tantas máquinas conseguem reproduzir sons, copiar estilos e prever fórmulas, Momoko Gill oferece algo mais difícil de fabricar: uma presença humana, uma voz forte, até porque um dos grandes destaques do disco é a imponente e urgente “When Palestine is Free”.
Ouçam e deixem-se levitar com Momoko Gill.