Minta & The Brook Trout apresentaram o seu novo disco, Stretch, num concerto envolvente onde se celebrou a discografia mais recente da banda e o trabalho desenvolvido pelo estúdio louva-a-deus
Foi devagarinho que fomos ouvindo falar de Stretch, o quinto longa duração do projeto de Francisca Cortesão, Minta & de Brook Trout, de quem já não ouvíamos novidades desde o lançamento de Demolition Derby em Abril de 2021. Primeiro um single, depois outro, e ainda mais um, até que, finalmente, nos chegou no início de Setembro, e quase um ano depois de termos conhecido a sua primeira faixa, Stretch, um disco que, segundo a banda, se alongou no tempo, sem pressa de se definir nem de se completar. Quem conhece a música com que os Minta & The Brook Trout nos presenteiam já há quase 20 anos, saberá que são canções que se prestam à contemplação plácida e à introspecção sobre as alegrias e os desgostos do dia-a-dia, pelo que a plasticidade para que nos remete o título do seu novo trabalho parece assentar ao projeto que nem uma luva.
As duas semanas que separaram o lançamento do álbum do seu concerto de apresentação, marcado para o B.Leza, chegaram para nos deixar com alguns refrões na cabeça e com a certeza de que tínhamos em mãos um dos melhores discos portugueses deste ano. Já tínhamos sido conquistados por “Cantaloupe”, o primeiro single a ser desvendado, mas canções como “Hope and Fiction” ou “Born To Be Mild” não demoraram a ficar conosco. Ao quinto disco, Francisca Cortesão e companhia continuam a esticar-se (ok, prometemos parar com os trocadilhos) para novos lugares, aprofundando a exploração do seu Folk luso (ainda que escrito num cada vez mais apurado inglês) e cruzando guitarras acústicas com sintetizadores, harmonias cheias de luz com coros distorcidos, pensamentos leves com reflexões profundas. Mas nada como verificar todas estas impressões ao vivo.
O concerto começou com “Cantaloupe”, para nosso gáudio, e sentimos logo que o estúdio louva-a-deus se tinha mudado para o Cais do Sodré por uma noite já que tanto a banda como a equipa responsável pelo som do concerto correspondia aos nomes responsáveis pela gravação de Stretch. O repetitivo e hipnótico teclado que começa a canção e lhe confere o seu tom onírico e lânguido soou particularmente bem nestes dias que marcam o fim do verão mas foi a guitarra e a voz de Francisca que mais cativaram a nossa atenção e ditaram o tom do resto do concerto. Tal como diz o refrão, também nós nos sentimos ali num estado de “emotional stillness”, com vontade de nos deixar amolecer pela doce voz da nossa anfitriã da noite.
Todo o concerto foi calmo e envolvente, sem pressas nem distrações, exatamente como nos parece que a música de Minta & The Brook Trout deve ser escutada. De Stretch, que foi tocado na íntegra, para além de “Cantaloupe”, apreciámos particularmente “Bagno Elena”, que fecha o disco e que incluiu o único elemento em todo o concerto que não foi tocado ao vivo, assim como os dois duetos, “Please Make Room For Me Please”, apresentado com a teclista Débora King a fazer as vezes de Shelley Short, que gravou o original, e “Born To Be Mild”, que no disco é cantado a meias com Tamara Lindeman (The Weather Station) e que na sua versão ao vivo juntou a voz de Afonso Cabral à de Francisca Cortesão. Por entre as estreias ao vivo ainda houve tempo para revisitar o passado recente e mostrar que a banda ainda tem as canções de Demolition Derby na ponta da língua – ouvimos, por exemplo, “Neighbourhood” e “Halfway True”. As canções mais antigas a entrar no alinhamento pertenciam ao disco Slow, the 2016. “I Can’t Handle The Summer”, canção que contrasta com a letra estival de “Cantaloupe”, recebeu uma reação entusiasmada da plateia que começava a perder a timidez e que acedeu a mostrar que também sabia a letra, incentivada por Francisca (“boa, cantem!”). Já “Bangles” com o seu refrão orelhudo foi a escolhida para encerrar o concerto – “You can bet I’d dance if I could do it” – cantámos nós com os Minta & The Brook Trout enquanto dançávamos, sabendo fazê-lo ou não. Para além da tour pela discografia mais recente, foi também um gosto ouvir a versão que a banda fez quando voltou do encore de “Airports and Broken Hearts”, original de Walter Benjamin, o alter ego já falecido de Luís “Benjamim” Nunes. Francisca explicou que não costumam tocar canções de outras pessoas mas que naquele caso abriam a exceção porque, durante a produção de Stretch, deram por eles a voltar àquela que é uma das melhores músicas dessa fase da carreira de Benjamim.
Francisca Cortesão e os restantes Minta & The Brook Trout (Afonso Cabral, Débora King, Mariana Ricardo e Tomás Sousa) ofereceram-nos uma performance serena, rica em texturas analógicas com deliciosos toques de elementos digitais e, sobretudo, perfeitamente representativa do talento de todos e da qualidade do seu novo trabalho. No fim, Francisca agradeceu a toda a equipa que ajudou a fazer o disco e ficou claro que, mais do que orgulhosa de ter feito nascer mais um elemento para juntar à já extensa discografia de Minta & The Brook Trout, Francisca estava orgulhosa de o ter feito com a com a equipa do louva-a-deus, o estúdio/agência/editora que fundou com Afonso Cabral. Do nosso lado, muito orgulhosos ficamos nós deles e de os podermos apoiar, continuando a ir ver concertos bonitos como aquele que deram no B.Leza.
Alinhamento:
- Cantaloupe
- Random Information
- Hope and Fiction
- Chewing Gum
- International Loss Adjusting
- I Can’t Handle The Summer
- Bagno Elena
- Economy Class
- Halfway True
- Neighbourhood
- Please Make Room For Me Please
- The Fake Outdoors
- Your Closeted Dreams
- Born To Be Mild
Encore
- Airports and Broken Hearts
- Bangles
Fotografias por António Vouga


















