Não é somente uma sala cheia que faz um bom concerto – com uma plateia pequena, mas quentinha, a primeira actuação dos Militarie Gun em Lisboa foi a melhor forma de sobreviver à tempestade que se fazia ouvir lá fora.
Os Militarie Gun não são ainda um peso pesado. Se há poucas semanas os Turnstile — vizinhos deste subgénero de rock alternativo entre o punk e o hardcore melódico — esgotaram o LAV, agora a mesma sala não conseguiu nem metade da capacidade para a estreia da banda de Ian Shelton. Mas, sinceramente? Ainda bem. Contra todas as intempéries, o pequeno mas devoto público teve o altíssimo privilégio de ter um concerto íntimo numa venue grande.
Com o mais recente álbum “God Save The Sun”, lançado em Outubro do ano passado, ainda por apresentar, o segundo longa-duração foi o fio condutor de um espectáculo caloroso, ornamentado com vícios, dores e traumas. É a tristeza combativa dos Militarie Gun: independentemente da profundidade do poço, há sempre força para sair dele. Melhor se for em conjunto, de preferência em uníssono.
Movida a caos e multiplicada em energia, “B A D I D E A” foi a faixa escolhida para começar (e acabar) o concerto, talvez como contraste ao espectro emocional do alinhamento. A revolta de “Big Disappointment”, a melancolia de “Throw Me Away” e de “God Owes Me Money”. E mais importante ainda: o saber pedir ajuda da agonizante “Thought You Were Waving”.
Entre as rajadas de riffs a caminharem para o precipício e os guerrilheiros (e muito peculiares) urros de Ian Shelton, ouvem-se melodias carregadas de lamentos que não lhes pertencem só a eles. Quem sabe um dia alguém escute os nossos. Fica por isso a esperança de que, talvez, da próxima vez que acenarmos, alguém saiba que é para nos dar a mão.
Fotografias: Francisco Fidalgo


















