Ao segundo disco, Milhanas apresenta uma proposta intensa e marcante que impressiona pela beleza e profundidade de cada canção.
Quando Milhanas cruza influências que vão de Patti Smith a Radiohead, passando por Beatles, Led Zeppelin, Leonard Cohen, Massive Attack, Nick Cave, entre outros, mas também o cinema de Jean-Luc Godard e Ingmar Bergman, o resultado é Surto, segundo disco de um prometedor percurso musical e sucessor do disco De Sombra a Sombra (2023). E, se este espelhava uma fase delicada da vida da artista, o mais recente envolve riscos e uma sonoridade menos próxima do universo português e mais amiga da pop e do rock.
O álbum abre com um aperitivo, “Intro”, seguindo-se “Deserto”, o primeiro single, e que, segundo a própria cantora, mostra que “a tristeza permanece, o lado negro” de Milhanas “ainda existe”, embora “o caminho agora” seja outro. Em “Mais je ne suis”, até entrar a voz sonhadora da própria intérprete, há citação direta da atriz Anna Karina no filme “Vivre sa vie”, exemplo da Nouvelle Vague premiado em Veneza e que Jean-Luc Godard realizou em 1962. “Ou então leva-me” está salpicado de tons jazzy, com um piano marcante e guitarradas em galope. “Tempos vivos” começa lento e sensual, mas depressa acelera para um contraste imperdível.
Pelo contrário, “Se o jardim secar” é um passeio de aparente tranquilidade, “O tanto que posso” é uma balada inquieta, “Em teus olhos” um mergulho mais fundo na melancolia. “Descansa” é quase um sussurro de esperança, “Sabor da cereja” uma injeção de energia, “Se eu pudesse chorar” devolve-nos ao confronto com a escuridão emocional e “Passed away” fecha em inglês com uma homenagem maternal.
Embora a música tenha estado sempre presente em casa – o pai trabalhou com Fausto Bordalo Dias, a mãe é uma voz notável -, conheceu etapas variadas até perceber o seu espaço: passou pela natação e pela equitação, quis ser treinadora de golfinhos, aprendeu violino em criança, sonhou ser maestrina, fez um curso de escrita com Luísa Sobral, participou no Festival da Canção em 2022 com “Corpo de mulher”, escrita por Agir.
Não é só com o invulgar tom grave da voz que Carolina Milhanas eleva a bitola neste segundo disco – é pelas atmosferas de intensa e perturbadora beleza geradas por cada conjunto de música e letra. Irreverência, personalidade e uma luz própria inesgotável prometem novos trabalhos para escutar a cada som, a cada pausa, a cada sopro do coração.