Quase dez anos passados desde a sua última passagem por Portugal, Brian Warner e companhia estiveram à altura de um público fervoroso. Durante hora e meia, o concerto do homem mais conhecido como Marilyn Manson foi uma festa de rock, um espetáculo de teatralidade e um antro de provocação: igual a sempre e a si mesmo, portanto. Ali, celebrou-se uma carreira com quase 25 anos, com a dose certa de hinos e incursões nos lançamentos mais recentes.
A expectativa era grande e sentia-se no ar: afinal, a última vez que Marilyn Manson tinha pisado terras lusas fora em 2009. O lançamento de Heaven Upside Down no final do ano passado acabou por ser o mote para esta visita já há muito desejada. Tanto que, antes do concerto começar, o público fartou-se de chamar, gritar e assobiar pelo homem que todos ali estavam para ver. De repente, “Ziggy Stardust” de David Bowie começou a tocar, o palco encheu-se de fumo e, no meio da névoa, lá apareceu Marilyn Manson. Sem dizer nada, um dos maiores ícones da história recente do rock começou a preparar o público, pondo o Campo Pequeno a gritar “we hate love, we love hate”. Já todos sabiam que aí vinha o arranque poderoso de Antichrist Superstar, “Irresponsible Hate Anthem”, que marcou logo o tom do restante concerto. No final, o microfone foi violentamente para o chão, destino de todos os microfones quando do término das músicas. Porque sim, porque ele pode.
Depois de uma salva de palmas assombrosa, Manson confessou que tinha saudades do público português e continuou no seu álbum mais icónico, com “Angel With the Scabbed Wings”. No final, o barulho da plateia foi de tal forma ensurdecedor que o cantor exclamou “You are the loudest motherfucking crowd in the fucking world!”. Em seguida, uma passagem por The Pale Emperor (2015), com o excelente single “Deep Six”, antecedeu um tríptico fortíssimo de canções, que pôs o público todo a cantar a plenos pulmões: “This Is The New Shit”, “Disposable Teens” e “mOBSCENE”. Durante estas músicas, voaram ursos de peluche para o palco e Manson até admitiu “You are the best crowd of my life!”
A primeira incursão no último álbum de Marilyn Manson – o single “KILL4ME” – protagonizou um dos momentos do concerto, com o cantor a chamar três fãs ao palco. Como não podia deixar de ser (afinal, estávamos na presenta do anticristo), soutiens e tops rapidamente começaram a desaparecer do corpo das dançarinas. Para completar a santíssima trindade “sexo, drogas e rock ‘n’ roll”, seguiu-se “I Don’t Like the Drugs (But the Drugs Like Me)”, durante a qual o cantor tratou, segundo o mesmo, de cumprir as ordens do seu psiquiatra e fumou a sua medicação ali à frente do palco. Ainda nesta música, que serviu de introdução para o festão industrial de “The Dope Show”, Manson convidou uma fã para cantar com ele, mas esta acabou por se amedrontar e o cantor disse-lhe gentilmente “get the fuck off my stage, not because you’re bad but because you don’t sing”.
Depois da passagem por Mechanical Animals, foi em terra de sonhos que se deu um dos melhores momentos do concerto: “Sweet Dreams (Are Made of This)”, versão do hit dos anos 80 e uma das músicas mais marcantes da carreira de Marilyn Manson, não só pôs o Campo Pequeno todo a cantar como levantou toda a gente que estava nas bancadas, que ainda tinham alguns resistentes colados aos assentos. Com tamanho fervor generalizado, estava estendida a carpete vermelha para um final estrondoso. Assim, surgiu “SAY10”, o poderoso singledo último álbum de Manson, que levou o público a clamar entusiasticamente com o cantor “You say God, I say Satan!”.
Contudo, o público não se apercebeu da saída dos músicos de palco, o que causou algum constrangimento momentâneo – afinal ainda faltava o encore e a plateia aplaudira apenas como para qualquer outra música. Apesar disso, quando o famoso símbolo em forma de raio se começou a iluminar no púlpito (acessório colocado em palco de propósito para a música que se seguia), começou a ouvir-se o “Hey! Hey! Hey!” que só podia querer dizer uma coisa: “Antichrist Superstar”. E ele lá apareceu em cima, a proferir a sua doutrina misantrópica e anárquica, numa execução muito boa deste clássico. A celebração anti-humanidade continuou com a exaltação da beleza na espetacular “The Beautiful People”, na qual se abriram os maiores mosh pits do concerto (que, de resto, foram praticamente constantes).
Antes do final, Marilyn Manson ainda aproveitou para apresentar a sua canção mais recente, “Cry Little Sister”. A cover de Gerard McMann gravada para o filme The New Mutants (da saga X-Men e que estreia em 2019) acabou por resultar muito bem ao vivo e arrancou imensos aplausos. A fechar o concerto, quase hora e meia depois de ter entrado em palco, Manson ainda presenteou o público com “Coma White”, faixa que encerra Mechanical Animals e que deixou o Campo Pequeno a pedir por mais Marilyn Manson, num final apoteótico e grandioso.
Ao longo do concerto, Manson foi provocando – como continua a ser característico da sua persona pública –, quer os seus colegas de banda (que estiveram muito bem nos seus instrumentos), quer o público com os seus movimentos em palco. Se é verdade que aquilo que faz já não é tão chocante como era nos anos 90 e no início do milénio, também é certo que Marilyn Manson ainda sabe dar grandes espetáculos e está em grande forma. A maior crítica que se pode fazer é aos (por vezes, demasiado) longos intervalos entre as músicas, que acabavam por arrefecer um pouco o calor que estas traziam. Contudo, no final, o balanço desta passagem por Portugal foi positivo e obrigou Manson a prometer voltar em breve.