Canção do dia

“Maggie’s Farm” – Bob Dylan

No princípio foram as versões de canções folk que captaram a atenção dos beatninks que pululavam por Greenwich Village. Depois foram as letras de intervenção e protesto que fizeram com que os saudosos vissem no miúdo judeu um novo Woody Guthrie. Mas depois o raio do miúdo tinha de vir estragar tudo com aquela porcaria da guitarra electrificada e manchar o cancioneiro folk. “Até desculpássemos que ele fosse um ladrãozeco de canções, tocasse todo pedrado e tal, mas agora guitarra électrica?! Isso é de mais, pá!”, pensaram a meia dúzia de puristas quando ouviram o lado A do disco Bring It All Back Home (o B é acústico, mas as pessoas preferem sempre ver o pior lado). Ainda mais grave terá sido quando decidiu tocar “Maggie’s Farm” no santuário da música folk, acompanhado por uma banda eléctrica.
E Dylan pode ser um grande músico (é, sem dúvida), há até quem ache que é um poeta merecedor de um Nobel (Leonard Cohen rebola pelo chão a rir), mas o que não é de certeza é um gajo que se deixa ficar. E por isso, quando soube que havia quem ficasse irritado por tocar com uma banda electrificada em metade de um disco, decidiu lançar um single também ele electrificado – e que single, senhores. Assim nasceu “Like a Rolling Stone”, uma das grandes canções da humanidade.
Mas a provocação foi ainda mais longe quando Robert Zimmerman chegou ao festival de Newport, a Meca dos fãs de folk, género que tinha como deus Woody Guthrie e profeta o jovem Dylan, que ali tinha actuado em 1963 e 1964. O problema é que em 24 de Julho de 1965, o bom velho e rezingão Bob tinha acordado com os pés de fora e quando lhe disseram que a administração estava a torcer para que não tocasse um alinhamento eléctrico, o autor de It’s All Right, Ma (I’m Only Bleeding) decidiu que era mesmo isso que ia fazer, tal e qual criança a quem dizem que não pode tocar num brinquedo.
Dylan juntou uma banda que incluía Al Kooper e Mike Bloomfield (ambos tocaram em “Like a Rolling Stone”) e ensaiou noite fora um alinhamento eléctrico. Chegado a palco, os primeiros acordes amplificados trouxeram as vaias de uma parte do público e os aplausos de outra. Mas Dylan aguentou-se estóico. Atirou-se a “Maggie’s Farm” com toda a convicção que a sua voz permitia e deixou em pulgas quem estava na assistência. 
No final e depois de tocar “Maggie’s Farm”, “Like a Rolling Stone” e uma versão experimental de “It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry”, Dylan abandonou o palco com a sua banda atrás, apenas para voltar, a pedido do público, desta vez sozinho. Era o triunfo do Dylan eléctrico.
Chegado à boca de cena, reclamou com a administração por lhe ter dado a harmónica errada – se acreditarmos no que clarifica Woody Allen, a sua ascendência judia deve ter feito com que pensasse que estavam a sabotá-lo – e pediu uma que estivesse afinada em Mi. Os fãs fizeram chover gaitas para o palco e Dylan acabou por tocar duas canções em modo acústico: “Mr. Tambourine Man” e “It’s All Over Now, Baby Blue”. Saiu em apoteose e durante mais 37 anos não pôs os pés no festival de Newport. Alguém quer saber o que é guardar rancor? Enderecem as vossas dúvidas para Robert Zimmerman. Ele percebe de rancor como ninguém (em compensação, escreve canções do caraças).

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