A sala principal da Casa Capitão esgotou para a estreia em Lisboa dos Mães Solteiras. Em véspera de dia de eleições, a reflexão foi feita em comunhão e sempre a abrir!
Há uma pergunta que se impõe: em tempos politicamente incertos e instabilidade social, como se mobiliza a resistência? Certamente a música terá um papel importante (historicamente falando) e talvez seja uma das formas mais cativantes de propagar ideias e gerar comunidade. Mães Solteiras, a nova banda de Joaquim Albergaria (The Vicious Five, PAUS), André Henriques (Linda Martini), Ricardo Martins (mil projetos, mas destacamos Fumo Ninja, Lobster, Pop Dell’arte…) e Pedro Cobrado aka Gaza (If Lucy Fell, Men Eater, Besta) apareceu e propôs-se ser uma peça nesta engrenagem complexa.
Segundo a sua página de Bandcamp, Ricardo Martins perguntou ao André Henriques se este quereria formar uma nova banda de punk hardcore e rapidamente chamaram Pedro Cobrado e Quim Albergaria para criarem esta super banda (desculpem o termo lamechas, mas é o que é). Disto resultou um álbum recentemente editado com 13 músicas, todas com menos de 2:30 minutos, com o apropriado título Vamos Ser Breves.
O álbum foi lançado a 6 de janeiro e este concerto, na Casa Capitão, foi a apresentação do mesmo. Não será surpreendente que o R/C da Casa estivesse cheio desde cedo, o anúncio de concerto esgotado fez-se dias antes, mas certo foi que havia pessoas sem bilhete a tentar a sua sorte, ansiosas para poder entrar. Surpreendente ainda foi o facto de o álbum ter sido lançado muito recentemente, mas haver pessoas (plural) que sabiam as letras de cor e a cantar de pulmão cheio e peito erguido.
Tematicamente falando, os Mães Solteiras (“Teres de criar um filho sozinho, o que é que pode ser mais punk do que isso?” – em entrevista ao Público) partilham mensagens políticas e de sobrevivência, com um sentido de urgência que pede uma resposta, uma acção, por parte de quem escuta. No concerto isto traduziu-se fisicamente em crowdsurf, muitos corpos a saltar de energia que, há que dizer, bastante extraordinário porque estava tanta gente naquela sala que parecia impossível conseguir mexer sequer um braço, muito menos saltar e dançar de corpo inteiro. Cantaram o seu álbum, sempre com enquadramento (sobre a música “Alcindo”: “o que é se passa agora que achamos que há 20 anos já se tinha passado? Alcindo Monteiro foi dançar e foi morto, assassinado por 27 homens”), ao ponto do Albergaria, num pequeno momento mais leve, brincar e afirmar “Estou bué Gustavo Santos agora, desculpem”. Também houve uma versão thrash hardcore da música “Era de Noite e Levaram” de Zeca Afonso.
Como a certa altura dizia Albergaria, “Queremos cuidar dos nossos filhos, queremos ter comida nos nossos frigoríficos” e também, por estarmos no dia de pré-eleições presidenciais, “não vamos eleger um facho”. Este discurso está enraizado naquilo que a banda pretende ser e mostrar, carregado de letras descomplicadas, carregadas de sentimentos de frustrações e desespero: “A guerra vai começar e nem tens corpo para ir” (“O teu nome no edital”), ou “Fui chamado aos Recursos Humanos, queriam saber de mim, se ainda tinha razões para gritar” (“Recursos Humanos”) e “Eu não sei fazer bem, mas vou fazer bom” (“Pedra-fedelho”).
O punk hardcore sempre teve, na sua essência, um questionar de mundo que rodeia, gritar perante as injustiças do dia-a-dia, dar voz às pessoas menos privilegiadas e lutar pelo objetivo sincero de construirmos um mundo melhor para todos. Os Mães Solteiras vieram dar um novo fôlego, ou, se quisermos, um novo grito, a este tipo de mensagem que dificilmente passa para uma bolha mais comercial e fica presa no underground. Sentimos que há sinceridade e honestidade nas músicas apresentadas, no discurso que as acompanha, na sua sonoridade acelerada e no seu sentido de urgência e contestação.
Foi um concerto emocional e cheio de força (“sangue, suor e lágrimas”), de uma banda que soube entregar o que se esperava deles, perante um público ansioso para os ouvir, que gerou uma alta expectativa sobre o que virá daqui para a frente e qual o papel desta resistência a que se propuseram.
Se o compromisso dos Mães Solteiras é serem breves, os Varge Mondar prometem, e pelos vistos cumprem, fazer vergonha à palavra “breve”! O quarteto recém formado por Márcio Oliveira (Chiaki Kido), Tiago Delgado (My Rules), Pedro Paulos (The Youths) e Ricardo Mendes (Cave Story e Rival Clubs) parece preferir termos como “imediato”, “repentino” ou mesmo “súbito”. Se não vejam lá, 9 temas em cerca de 20 minutos … a contar com os agradecimentos, as afinações e, principalmente, aqueles segundos preciosos para devolvermos os bofes para dentro.
O público que ia enchendo a sala saltou, dançou, moshou e só não cantou as letras porque poucos debitarão tantas palavras por segundo quanto Márcio … isso e porque estávamos todos a ouvir aqueles temas pela primeira vez. Formados há ainda menos tempo que os primeiros, este foi justamente o concerto de estreia da banda que foi buscar o seu nome a uma localidade da freguesia de Rio de Mouro (na linha de Sintra). Mais auspiciosa, não poderia ter sido e agora é manter o ritmo para podermos ouvi-lo, quem sabe, ainda este ano!
Texto: Margarida Santos com uma pincelada rápida do Rui Gato || Fotografias: Rui Gato



























