Passa-Montanhas é o mais recente álbum, e 7º na carreira, dos Linda Martini. Numa manhã invernosa, o Altamont esteve a falar com Cláudia Guerreiro e Hélio Morais, conversamos sobre a necessidade de conversar melhor, do Corvo, e das montanhas presentes no caminho da banda.
Altamont: Ok, então, sétimo disco…
Cláudia Guerreiro: Eishhh
Hélio Morais: (risos)
Já sentem o peso da idade?
Cláudia Guerreiro: Não sentia, mas agora, ao ouvir isso…
Fizeram 20 anos no ano passado, certo?
Hélio Morais: Sim, sim.
Cláudia Guerreiro: Foi em 2023, 20 anos de banda.
Hélio Morais: É verdade, mas só conseguimos celebrar no ano passado, devido a alguns atrasos. São 20 anos com já muita coisa pelo caminho, até com mudanças de formação. E cada vez fica mais difícil definir um set para um concerto. São muitos discos, muitas músicas, e preferências diferentes entre nós e aquilo que achamos que o público vai querer ouvir. Às tantas, para conseguires ir a todo o lado, estamos a pôr uma música de cada disco no alinhamento. Começa a ser um bocadinho complicado, ainda por cima com um disco novo. Se para os concertos de apresentação já foi difícil escolher o alinhamento, imagino que será pior num festival, por exemplo, onde temos 50/60 minutos para tocar, nem o disco novo todo dá para tocar.
E este é o primeiro disco sem o Pedro Geraldes. Como foi o processo de criação sem ele? Houve muitas mudanças?
Hélio Morais: Não. O processo de composição foi semelhante aos dois discos anteriores. Desde o disco Linda Martini, começamos a fazer residências de composição, onde registamos tudo para mais tarde trabalharmos nas canções na sala de ensaios. Desta vez não foi diferente, fizemos uma residência em Leiria, no espaço Serra, com o Rui (Rui Carvalho – Filho da Mãe)…
Cláudia Guerreiro: Desculpa interromper, porque há uma diferença nestas residências, enquanto nas outras, nós já levávamos algum material nesta não houve tempo. O Rui entrou para tocarmos o ERRÔR e não conseguimos fazer coisas na sala de ensaios antes de irmos para essa residência. Portanto, esta residência com o Rui foi diferente no sentido em que nós chegámos lá de mãos vazias e foi construído tudo ali com os 4 ao mesmo tempo, naquele momento. Claro que depois as coisas continuaram, mas nesse sentido é um bocadinho diferente, não?
Hélio Morais: Sim, mas é o mesmo processo.
Cláudia Guerreiro: É o mesmo processo, mas de facto, nós ao fazermos as coisas com o Rui, “fomos de cara”, ou seja, foi um bocadinho à bruta. Chegámos lá e do nada tivemos de fazer alguma coisa.
Hélio Morais: A diferença, a meu ver, foi o depois dessa residência. Nós normalmente já levávamos as bases das canções para as residências, mas como desta vez foi tudo feito lá, fizemos uma coisa a seguir que não costumamos fazer que é produzir muito essas músicas e mudámos muita coisa dessas músicas. Por isso adicionámos uma cassete a quem comprou o disco em pré-venda, que tem as versões dessa residência que são mesmo muito diferentes das do disco final. Também podemos considerar que é fruto do Rui ter sido incluído na banda, ele está muito habituado a gravar enquanto compõe, porque ele está habituado a compor sozinho. Gravamos os ensaios, pós-residência e depois vamos alterando as versões, isto permitiu-nos isolar as pistas e, se calhar, ser um bocadinho mais refinados.

O título do disco e o conceito visual parecem ter um significado forte. Porquê Passa Montanhas?
Cláudia Guerreiro: Escolher um nome para um disco é algo que começamos a pensar cedo, muitas vezes antes das próprias músicas, ou seja, começar a agarrar uma ideia que se consiga começar a desenvolver. Desta vez, surgiu de uma mensagem de uma amiga do Hélio, com um artigo do jornal Público, sobre uma história que nos era comum a todos, incluindo a mim. Uma personagem que se autointitulou o Corvo, que vivia na zona de Queluz e Monte Abraão. Se calhar, o Hélio explica melhor essa ideia….
Hélio Morais: Nos anos 90, havia muitos problemas com heroína, e muita gente, acabou por se afundar um bocadinho nisso. Esta história aconteceu no início dos anos 90, no bairro onde eu morava, em Massamá. Havia uma espécie de gangue que era o Gheto, que não era gangue nenhum, se formos avaliar os gangues reais.
Cláudia Guerreiro: Gangue à portuguesa.
Hélio Morais: Na verdade, foi apelidado de Gheto pela própria polícia, numa operação qualquer onde disseram que aquele grupo parecia um Gheto. Acredito que tenha sido por isto. Depois havia a Gália de Queluz, o Gang do Limão, acho que era da Amadora, havia Beat Street, no Monte Abraão, havia uma série de gangues que andavam à porrada uns com os outros. Iam para os carrinhos de choque, com toalhas molhadas enroladas e andavam à porrada uns com os outros. Este gangue que era de Massamá, o Gheto, tinha uma pessoa que era uma espécie de líder do gangue, o Beto ou Felisberto Cabral. Ele era do Casal do Olival, que era como se chamava a nossa zona. O Beto não estava muito feliz com que aquela malta estava a fazer e decidiu criar este personagem que é o Corvo, sobre o qual foram criados vários boatos, alguns mesmo por ele, que andava a roubar, esfaquear e intimidar pessoas no meio da rua e aparecia sempre com um passa montanhas. E era assustador, apareceu-me quando eu estava com amigos, éramos putos, tínhamos 11 ou 12 anos, com um facalhão e o passa montanhas. Então, ele criou este mito para que todos os gangues se unissem com um objetivo comum que era apanhar o Corvo. Às vezes ele ia no gangue e não aparecia Corvo nenhum, outras ele não ia e aparecia o Corvo… era um tipo superágil, mas eu já não sei quanto disto é memória construída, e quanto disto é memória vivida mesmo, mas consta que, às vezes, nas caçadas ele fazia piruetas e dava mortais e ninguém o apanhava até um dia em que ele se revela e explica que era tudo era com o intuito de conversar melhor e basicamente ele quis pôr estas pessoas todas a conversar e aí perceberem que se calhar não eram tão diferentes e conseguir fazer coisas juntos. Este personagem acabou por ir à televisão falar sobre isto e fez parte de alguns grupos de apoio a jovens, uma espécie de consultor à época, de paróquias da própria Câmara Municipal de Sintra, ou seja, foi uma personagem super inspiradora. E quando vi a foto, que a minha amiga mandou na reportagem do Público, enviei-lhes a fotos e toda a gente achou tinha de ser capa do disco.
Cláudia Guerreiro: A partir daí, nós começamos a desenvolver essa ideia de passa montanhas. Não só por ser o nome da peça de vestuário, mas pensar a no percurso que como banda vais passar, com altos e baixos. Passa montanhas abarcava uma série de coisas que nós andávamos a falar na altura. No fundo, nós, quando escolhemos um nome ou quando escolhemos uma capa, acabamos por ir buscar automaticamente aquilo que está em nós e conseguir encaixar nesse contexto. Às tantas, já só víamos montanhas e serras por todo o lado. Eram só coincidências à nossa volta, fizemos a residência no Serra, isto tinha a ver com Sintra, a Serra de Sintra, quando fomos para a Catalunha passamos pelos Pirinéus, chegamos lá e estamos a gravar no meio de montanhas, o tapete do rato Santi (Santi Garcia, o produtor) era o Monte Evereste.
Hélio Morais: Só nos falta tocar no final da etapa de montanha de volta a Portugal.
Cláudia Guerreiro: Vamos fazer uma tour nas montanhas e serras de Portugal. Se houvesse salas para tocar…
Mencionaram “conversar melhor” como o mote do disco. O que querem dizer com isso?
Cláudia Guerreiro: Conversar melhor é uma coisa que faz falta a toda a gente. Há cada vez menos capacidade de conversar melhor e nós não estamos a dizer que estamos a conversar melhor, mas o estar atento a isso é um passo grande nesse sentido. Nós, enquanto banda, claro que temos dificuldades em falar bem, somos 4 e cada um tem uma ideia. Às vezes é difícil chegar a um sítio em que todos concordemos, mas é preciso saber fazer cedências. É preciso saber aceitar quando é que é a nossa ideia que vai para a frente. Quando é que é a do outro, ou de que modo é que podemos fazer as nossas ideias, convergir. “A cantiga é” é um bom exemplo disso. O André chegou com a letra, isto já depois da parte musical está bastante definida, e a letra suscitou aqui alguns… problemas, não sei se lhes em problemas algumas.
Hélio Morais: Não diga problemas.
Cláudia Guerreiro: Diferenças de interpretação.
Hélio Morais: Quando escreves uma coisa, é com uma intenção. Na tua cabeça tens aquela ideia ou um questionamento. Mas, depois não sabes como é que isso vai bater nas outras pessoas, e às vezes bate de uma forma que as pessoas não entendem… não estão dentro da tua cabeça, estão a interpretar aquilo de outra forma e é uma forma com a qual não se identificam. Apesar de ser o André a escrever, não há nada que não seja aprovado por todos, porque somos uma banda, portanto, o que é dito pelo vocalista é assumido como uma posição da banda.
Cláudia Guerreiro: Tal como temos de nos identificar com a parte musical, temos de nos identificar também com o texto, não é?
Hélio Morais: Exatamente suscitou algumas dúvidas, então, foi importante e um ótimo exemplo do que eu estava a dizer. Temos mesmo conversado muito sobre essa letra, para perceber exatamente o que é que estava na cabeça do André para perceber se todos conseguimos, de alguma forma, relacionarmo-nos com a letra…
Cláudia Guerreiro: É uma questão de conseguirmos encaixar na cabeça de cada uma maneira daquilo fazer sentir….
Hélio Morais: Exato, teve de ser muito debatida para entender se, de facto, aquilo tinha chão comum.

Pegando nesse tema “Cantiga é”. Acham que a música deve ter um tom político ou social, além de entreter?
Hélio Morais: Dizer-se que “deve” e implica que tudo o não o faça, não é válido, e acho que nenhum de nós concorda com isso. Ou seja, é salutar quando é feito dessa forma? Com cabeça e coração no sítio certo? Sim. E acho que todos concordamos com isso. Impor-se um dever da cantiga, acho que não. Na letra da “Cantiga é” há um questionamento, se é ou se não é. Não há uma resposta encerrada na própria canção, porque o contexto às vezes é tudo, e se calhar num tempo em que não se podia dizer tudo, de facto, a cantiga podia ser uma arma. Era a forma de passar uma mensagem que de outra forma não poderia ser passada. À luz dos tempos de hoje e as pessoas podem dizer tudo o que querem, por mais que haja uma agenda que nos tente fazer acreditar que não se pode dizer nada. Hoje em dia podemos ser criticados, mas pode-se dizê-lo…
Cláudia Guerreiro: Sim, mas não vais preso, ainda não vais preso por isso.
Hélio Morais: Nesse sentido, será que a cantiga é realmente uma arma neste contexto? É um bocadinho sobre isto que a letra gira. Não só não estamos a dizer que é, como também não estamos a dizer que não é. E tanto que nós temos outras canções neste disco, inclusivamente que podem ser vistas como uma espécie de canções de intervenção, no sentido em que são mais passam uma opinião mais encerrada sobre determinadas coisas. Portanto, não é uma crítica a quem o faz. Porque nós também fazemos, na verdade, mas é um questionamento. Às vezes, se calhar há um bocadinho de facilitismo em assumir os chavões que somos uma banda política ou politizada. Às vezes quando esse tipo de afirmação é muito vincado. Acho que esconde uma vontade de ser mais que se é realmente, nem sempre, mas pontualmente pode ser isso. Nós não gostamos ser vistos como uma banda de causas e tomar lugares que não são necessariamente os nossos, mas temos opiniões e visões sobre o mundo e às vezes cantamos sobre elas.
E quais são os planos para Passa-Montanhas?
Cláudia Guerreiro: Para já, passa por tocarmos nestes concertos de apresentação. O disco sai no dia 24 e, nesse dia, vamos tocar em Tondela. Por acaso, não sei se está perto de alguma montanha ou serra. Estamos sempre, não é? Portugal é tão pequenino.
Sim, Tondela tem a Serra do Caramulo. (risos)
Cláudia Guerreiro: Depois temos Lisboa e Porto. No dia 31 de Janeiro, em Lisboa, no LAV e no dia 1 de Fevereiro, no Porto, no Hard Club. E Marinha Grande no dia 8 de Fevereiro, não é?
Hélio Morais: Exato. Já temos mais coisas, mas por enquanto são essas.
Cláudia Guerreiro: Para já são estes, aquilo que queremos, e que toda a gente quer, é tocar muito. Não é um momento onde esteja espetacular para tocar muito por alguma razão. Temos essa dificuldade, mas é isso. Já temos algumas coisas marcadas e queremos tocar muito.

E que conselho dariam para quem vai ouvir o disco pela primeira vez?
Cláudia Guerreiro: Acho que não se pode dar conselhos a quem vai ouvir. Não é? Podes?
Hélio Morais: Sim, não ponham demasiado alto. Tem partes muito, muito barulhentas.
Cláudia Guerreiro: Eu diria para ouvirem o disco todo porque acho que ainda vale a pena ouvir os discos. Os discos estão pensados enquanto objetos. Hoje em dia ouvem-se as músicas soltas, e nem sequer é uma crítica. É assim que as plataformas nos estão a habituar ouvir música, com shuffles e com playlists. Mesmo as crianças hoje ouvem músicas assim. Antigamente tu ouvias um disco com os teus pais. Agora, os putos já carregam nas playlists sozinhos e põem aquilo a funcionar. Mas, de facto, um disco quando é feito ele, ele é feito com uma ideia, uma linha condutora do início ao fim. Começa e acaba de uma certa maneira. E continua a valer a pena ouvir uma obra, seja uma obra visual, uma obra musical, continua a fazer sentido ouvires uma coisa do princípio ao fim. Quando vês um quadro, não vês um canto do quadro, vês o quadro todo. Infelizmente, na fotografia estamos muito habituados a que sejam cortadas as fotografias, mas as coisas são feitas de uma maneira, por alguma razão. Então o conselho que eu dou é ouvir do princípio ao fim, porque é assim que faz sentido. Depois podem ir picando as canções.
Hélio Morais: Parece que não se tem concentração. Um exemplo é a “Cantiga é”. Muitas pessoas achavam que estávamos a afirmar que a cantiga era uma arma e não é exatamente o que estamos a dizer. Então quando ouves a “Cantiga é”, e obviamente é cantado, e não se sabe se é uma interrogação ou afirmação.
Cláudia Guerreiro: Questionar é das coisas mais importantes, e as pessoas hoje em dia questionam pouco. Há muita afirmação, muita bandeira, hasteada. Não é porque todas as redes são feitas para teres um chavão…
Hélio Morais: A culpa é do X (risos).
Cláudia Guerreiro: “Que é que dizes hoje?” Digo: questionar e questionar. É o que nos leva a respostas e perspetivas diferentes. Há muitas perspetivas válidas para muitas coisas, mas é preciso questionar para se conseguir perceber isso não é chegar com uma frase feita e dizer que é assim ou assado.
Hélio Morais: E porquê? Talvez seja mais difícil as pessoas simpatizarem umas com as outras, porque as discussões são feitas online. Se calhar, as conversas aconteciam no café e as pessoas chateavam, mas estavam ali. Tinham de lidar com as outras pessoas que a seguir estavam lá outra vez, então conseguiam.
Cláudia Guerreiro: E tens espaço para ter opiniões diferentes numa mesa de café. A partir do momento em que tu vais para a Internet dizer é assim, acabas por ter uma crítica de desconhecidos, ou seja, a tua opinião é pública.
Hélio Morais: Bloqueias. Sim, e não lês mais, não te aparece mais no algoritmo.
Cláudia Guerreiro: É isso. Portanto, é importante questionar e haver espaço de discussão e haver menos dedos apontados a qualquer palavra. Não sei porque é que viemos parar aqui com a tua pergunta…
Também não interessa… são coisas importantes e devem ser ditas.