Na sua primeira vinda a Portugal, Laufey passou pelo Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para apresentar o seu último disco, A Matter of Time. Foi uma noite de jazz pop, conselhos de irmã mais velha e de concretização de que, na música, não há regras e podemos mesmo ser quem nós quisermos.
Não sei dizer ao certo e uma rápida pesquisa na internet também não me esclareceu, por isso peço desde já desculpa por alguma inexatidão: aos 15 anos, Laufey já tocava violoncelo na Orquestra Sinfónica da Islândia, mas só começou a soar nos ouvidos de muita gente com os vídeos que publicava no Instagram com excertos de covers e de originais não lançados, ainda antes da pandemia. A sua voz surpreendente e as inspirações de jazz, bossa nova e música clássica que trazia eram refrescantes, sobretudo tendo em conta a sua idade.
Depois, vieram os discos, aqueles por que eu tanto ansiava nessa altura, mas, confesso, perdi-lhes um pouco o rasto. Quando, em 2023, saiu Bewitched — disco que lhe valeu o GRAMMY para Melhor Álbum Vocal de Pop Tradicional —, fiz nota mental de prestar atenção à carreira da artista que, sem me aperceber, tinha explodido. Claro, fazia todo o sentido. A sua música era verdadeiramente inovadora na mistura de géneros clássicos, geralmente, fechados sobre si próprios, com letras modernas sobre dores de crescimento e desamores. Com uma voz doce e quente, Laufey trazia novidade para o pop, pela destreza que mostrava em fazer canções catchy e honestas sobre ser-se jovem, no mesmo álbum em que homenageava Chopin (”Nocturne (Interlude)”).
Quando soube da sua passagem por Lisboa, imaginei os vídeos do Instagram em ponto grande. Não tinha ouvido o disco que vinha apresentar, A Matter of Time, e tampouco estava a par do fenómeno que Laufey entretanto se tornou entre os mais novos, creio eu que por via do TikTok. Assumo o lapso absoluto, dado que a cantora e multi-instrumentalista sino-islandesa de 26 anos esgotou o Coliseu dos Recreios em menos de 5 minutos, depois de ter incluído Lisboa na tour do seu último álbum por pedido especial, motivada pela avalanche de mensagens que recebeu nas redes sociais dos fãs portugueses.
É, por isso, importante dizer que as minhas expectativas eram diferentes e passei a primeira parte do concerto a testemunhar com surpresa (mas, ao mesmo tempo, nenhuma surpresa, porque é perfeitamente compreensível) a legião de fãs que tinha chegado toda antes de mim (ouvi falar de filas intermináveis) e que gritava (berrava), trazia coroas de espuma e glitter na cabeça e aplaudia efusivamente cada técnico que entrava no palco, antes do concerto.
Os gritos ensurdecedores aquando da entrada de Laufey em palco calaram-se aos primeiros acordes. Percebeu-se logo que o que aquele público tinha de entusiasmado também tinha de respeitador, mas num nível muito sério, como se o espectáculo fosse sagrado. Acho que nunca estive num concerto em que a plateia fosse tão barulhenta e tão silenciosa, consoante o momento, de forma tão contrastante. Se, noutras cidades, há cenários, figurinos e bailarinos, em Lisboa o registo foi mais intimista, com um palco pouco adornado e um quarteto de cordas a acompanhar a estrela da noite. Laufey justificou a simplicidade por estar numa cidade nova e querer conversar e dar-se a conhecer.
Foi um concerto muito clean. Entre as músicas havia histórias para contar, incluindo um discurso contínuo importante, sobretudo para a sua audiência mais nova, sobre desamores, desgostos e a dificuldade de ser uma jovem mulher neste mundo de comparações e competições inventadas. A transição entre conversa, guitarras e piano foi sempre imperceptível, mostrando como o concerto tinha sido desenhado ao pormenor. Sobre isto, questiono se Laufey sentirá o peso da indústria, que fabrica espectáculos para o TikTok, ou se é a minha expectativa criada pelos seus primeiros trabalhos que esbarra contra o momento em que um peluche gigante (Mei Mei The Bunny, a mascote da artista) entra em palco para coroar o “best dressed”, introduzido à bruta a meio da setlist.
Começou com “Fragile”, do seu primeiro disco Everything I Know About Love (2022), mas foi “Lover Girl” de A Matter of Time que pôs o público, desde logo, a cantar em uníssono. A bossa nova de “Falling Behind” precedeu a querida “Valentine” ao piano, que foi acompanhada por uma plateia que se antecipava nas palavras, tal era o entusiasmo. Passando de baladas para sambinhas, “From the Start” e “Promise” do segundo álbum Bewitched (2023) foram fan favourites e o single “Let You Break My Heart Again” foi um mimo, mas foram “Too Little, Too Late” e “Goddess” que encheram o Coliseu.
A setlist passou por praticamente toda a sua discografia e as letras sempre honestas tocaram em todos os assuntos urgentes da adolescência e dos primeiros anos da vida adulta. No encore, o público, embevecido, teve direito a “Letter to My 13 Year Old Self”, em que Laufey encorajou todos a seguir os seus “really big dreams”, e a um tema novo, ainda por lançar, que a artista decidiu tocar à última da hora e sem ter a certeza de que podia, numa demonstração de apreciação por aquela audiência tão fiel. Enternecida pelo carinho do público nesta sua estreia em Portugal, Laufey prometeu voltar muitas vezes.
Se por um lado sinto que este concerto foi o mais próximo que alguma vez estive de um concerto da Taylor Swift, por outro lado diz-se que Laufey reavivou o jazz entre as gerações mais novas e eu acho que isso é de valor. Trata-se de uma artista com excelentes referências que conseguiu trazê-las para o mainstream, com um twist de pop e pózinho mágico. No fundo, Laufey ensina-nos que não temos de nos fechar nas caixinhas que o mundo nos diz que existem. Quando cantou o verso “Keep on going with your silly dream”, alguém gritou “I will!” da plateia e isso relembrou-me porque é que eu quis ir ao concerto. Oh, to be a girl.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização











