No final, ficou a sensação de ter assistido a algo que transcende o som: um diálogo delicado entre corpo, instrumento e tempo.
O tempo em Lisboa parecia em plena comunhão com o evento de Vale Perdido nesta noiote de Novembro. Entre chuvas que paravam e reiniciavam com diferentes intensidades, nós, protegidos e a aquecer-nos dentro do Clube B.Leza, estávamos prestes a presenciar duas performances que se complementaram — uma verdadeira comunhão entre a força da natureza e a força humana.
Sob os holofotes baixos de azul-royal e no meio do espaço geralmente destinado ao público, Inês Tartaruga Água puxou uma única cana de bambu e, com gestos muitas vezes lentos e delicados, e outras vezes rápidos e agressivos, começou a cortar o ar, de tal forma que podíamos ouvir o ar mover-se. Enquanto ela própria começava a explorar todo o espaço e a ficar frente a frente com o público que se acumulava à sua volta, o som repetia-se, cada vez menos espaçado e mais hipnotizante. Depois de alguns minutos, Inês, com uma cana de bambu em cada mão — consideravelmente maiores — começa a girar sobre o próprio eixo, e o som constante do ar a atravessar as canas cria uma repetição hipnotizante. Se todos apreciamos o drone gerado pela manipulação de sinais eléctricos de sintetizadores, este é o drone na sua forma mais primitiva. E este som repetitivo, com os seus pequenos acidentes — o chão, as paredes e as colunas de som que se colocam no caminho das canas — dá riqueza e, por fim, textura e beleza à repetição. Sob esta hipnose, o tempo fora e dentro do Clube B.Leza tornava-se um só, apesar de estarmos secos. Era impossível não se sentir atraído pela beleza dos movimentos e dos círculos sonoros à nossa frente e, ao mesmo tempo, ao redor de todos nós, e não pensar na passagem do tempo, na inquietude e nos sacrifícios ao ver Inês rodopiar durante quinze e tantos minutos.
Poucos instantes passam até que o público volte a encher o espaço antes ocupado por Inês e, quando todas as luzes se apagam e um singelo holofote vermelho-vinho ilumina o palco ao fundo, surge então Joanne Robertson, tímida, singela, pousando a guitarra quase como quem pede desculpa. Durante a hora seguinte, Joanne toca a sua guitarra eléctrica com o típico jangle de uma Fender Jaguar, mas aqui com tons muito graves e lúgubres, pouco comuns de se ouvir extraídos do instrumento. A sua voz e a guitarra elétrica, ambas cheias de eco, prolongam o tema de contemplação da noite, e assim ela percorre vários temas do seu último disco, Blurrr, como “Ghost”, “Exit Vendor”, “Why Me” e “Gown”. Ainda ouvimos “Blue Car” de seus discos anteriores e depois, a pedido, “Heat”, de uma colaboração com Dean Blunt.
O público estava lá para a receber e permitiu-lhe tomar todo o tempo necessário para trocar de afinações entre as músicas, como deveria. E, apesar de se mostrar tímida e mais calada no início, depressa se soltou e fez algumas brincadeiras com o público, que por sua vez trocou muitas daquelas conversas anónimas, como se estivéssemos todos numa sala de estar a admirar os talentos de uma amiga — o que talvez esteja mais próximo da verdade.
As músicas e a apresentação de Joanne têm muito das qualidades hipnotizantes da sua entrega vocal maleável, dos seus dedilhados cíclicos e strums com altos e baixos, que parecem, por si só, desafiar a passagem do tempo, traçando um paralelo muito marcante com a performance inicial de Inês.
Quando as luzes se apagaram no Clube B.Leza, ficou a sensação de ter assistido a algo que transcende o som: um diálogo delicado entre corpo, instrumento e tempo. Entre a intensidade hipnotizante de Inês e a contemplação etérea de Joanne, percebeu-se que a curadoria da Vale Perdido neste dia não poderia ter feito um trabalho melhor, unindo dois artistas tão distintos e, ao mesmo tempo, complementares. O público saiu carregado de uma experiência que mistura energia, silêncio e beleza — um lembrete de que, por vezes, a música nos conecta profundamente com nós mesmos e com o mundo à nossa volta.
Fotografias gentilmente cedidas por Vera Marmelo












