Num cenário musical muito marcado pela predominância da ironia – na pose e nas letras que os artistas e bandas vão cantando -, é refrescante ouvir alguém para quem a canção não é uma mera brincadeira lúdica de plasticina.
Jasmim, nome artístico do músico, cantor e escritor de canções português Martim Braz Teixeira, não precisa de pose, de ironia, da coolness forjada que esconde a infantilidade. Ele não quer ser admirado, invejado ou desejado, quer ser ouvido. E tem muito para nos dizer.
Logo na primeira canção de Dias em Branco, “À Tua Vontade”, suspeita-se que vem aí uma pérola, musical e lírica. Ouvimo-lo rever, criticamente, o padrão de vida contemporânea: “Carregas nas costas / 30 e tal anos a fazer o que não gostas / e para quê? / para sustentar uma família que mal vês? / já nem disfarças / cada dia que passas a sofrer / e para quê? / será que ainda vês os filhos a crescer? / um homem não pode ser / um homem não deve ser / uma máquina”
Não há cá atitude blasé, engraçadismo crónico, postura “olha para mim que sou tão divertido”. Os arranjos são seríssimos, por vezes solenes, de uma delicadeza e bom gosto inatacáveis. Isto é um rapaz que ouviu muita música boa, de que foi bebendo e que foi misturando numa liquidificadora, até encontrar a sua receita própria, original e de instintos certeiros.
Liricamente, Dias em Branco traz muita coisa: reflexões sobre a beleza da vida, sobre a tragédia que é desonrá-la desperdiçando-a, a defesa de um modelo de vida errante, mais intintivo que calculado (“sigo o instinto / e quando fala / ouço o que tem p’ra me dizer”, diz numa canção; “se vierem perguntar / p’ra onde vou, se é para ficar / hoje acordei sem planos”, dirá numa seguinte) e um encantamento com a natureza. É um disco a que seria uma traição chamar “ingénuo” ou “pueril”. Mas é um disco encantado, de alguém encantado com o mundo, o mundo que se esconde para lá das obrigações quotidianas. Isto liricamente.
Instrumental e melodicamente, Dias em Branco é tão aberto quanto os campos verdes que poetiza: há pianos, sintetizadores, guitarras, vozes várias (a de Jasmim, claro, mais central), baterias e percussões, baixos e flautas, lap steels e clarinetes variados. Um pouco como Qualquer Um Pode Cantar, disco editado no ano passado por Bia Maria (cuja voz, curiosamente, também se ouve por aqui a cantar), é uma pérola íntima e delicada da música portuguesa, arrebatadora na sua fragilidade, comovente no seu recolhimento e nas suas explorações sónicas serenas. Um disco de libertação, que confronta e questiona o mundo com poesia, beleza e melodias, e, ao terceiro álbum que edita (depois de Culto da Brisa, de 2019, e Acordado ou a Sonhar, de 2021), a grande obra-prima de Jasmim.