O primeiro álbum de Humberto é um manifesto de amor e liberdade, canções tocantes e luminosas, poemas mordazes e uma voz singular.
O que é Resistir?
“e se nos apertam, há de haver quem cante sozinho e por nós”
Esta frase, cantada repetidamente no final de “Peça Sem Refrão”, traz-me imediatamente à memória aquela fotografia icónica, tirada pelo José Sena Goulão no dia 25 de Abril da pandemia, de um homem sozinho a subir a Avenida da Liberdade, carregando às costas uma enorme bandeira de Portugal.
É isso, resistir? Mostrar que nem o raio de um vírus que tira as pessoas da rua consegue vergar um homem de princípios? Sim, resistir é isso, sim. Entre muitas outras coisas, claro, muitas outras formas. Cada um usa os recursos à sua disposição, seja ensinar valores a uma criança, seja usar a voz para cantar, a pena para escrever, fincar o pé quando dizem para marchar. Basta haver coragem. Basta acreditar quem um acto simples, isolado, pode bastar para mudar qualquer coisa.
Eis então o assunto que nos traz a Mau Teatro, primeiro longa-duração de Humberto. Não é apenas um disco, é um manifesto musicado, um preparado meticuloso de escrita forte e melodias certeiras, que sorrateiramente nos põe a trautear palavras de ordem.
O actual momento do mundo está a dar-nos cada vez mais motivos de preocupação. “Tanta dor em todo o lado”, canta Humberto no primeiro verso da primeira canção do disco, por entre teclados alegres que disfarçam a aflição: “quem aguenta, quem resiste, sem passar um mau bocado (…) esta dança sem ritmo, com trejeitos fascistas, aplaudida pela vara da direita racista”. E logo nesta primeira canção, com voz grave, forte, segura, Humberto canta por nós e suga-nos para dentro do disco, definindo o mote do que aí vem: um punhado de canções de amor, de liberdade, e de amor à liberdade. No seu canto, simultaneamente triste e alegre, resume as nossas dores individuais e colectivas mas faz-nos sonhar. Porque enquanto houver um homem que que sonhe, não seremos vencidos.
Humberto, artista pluridisciplinar, tem bem presente que a cantiga é uma arma (tudo depende da bala, e da pontaria), por isso dá igual atenção às componentes: bélica e melódica. Para ajudar a dar corpo às canções, convocou Miguel Nicolau (dos Memória de Peixe, produtor de gente como JP Simões ou Golden Slumbers), e daí resultou este equilíbrio espantoso entre a melodia e a palavra/voz. As canções passeiam por vários estilos, desde um pop-rock sentimental (”Amarrotado”) a baladas intemporais (“A Luz Através do Cimento” ou “O Dia Adiado”), piscando o olho à música tradicional portuguesa (“Fola”), trejeitos fadistas no cantar, por vezes guitarras urgentes de encher estádios, noutros casos teclados tristes de fim de festa de bairro. Umas mais despidas e outras com arranjos cheios, mas seja qual for a estética, o que sobressai é a facilidade com que nos ficam no ouvido e passamos o resto do dia a cantar uma frase ou assobiar um refrão.
Mau Teatro é um documento valiosíssimo dos nossos dias. Não é só a mordaz observação do quotidiano, nem é apenas a poesia cuidadosa em canções tocantes, nem tão pouco se fica só por diagnosticar os males do mundo. É uma especie de elixir da salvação que nos enche o espírito de esperança e alento.
Sem saber, o provavelmente sem o almejar, Humberto pode muito bem ser a voz de uma geração, que importa saudar e acarinhar.