Another Farewell marca a estreia dos Horsebath, quarteto canadiano de Montreal que apresenta um álbum onde o country, o folk, o rhythm & blues e uma pincelada de psicadelismo se entrelaçam para formar uma identidade esteticamente e musicalmente coesa, apesar da diversidade.
As comparações com The Band são inevitáveis, sobretudo pelas qualidades que geralmente lhes são atribuídas: a versatilidade na composição, a alternância de vozes e a capacidade de transformar a música norte-americana numa amálgama intemporal e ancestral. Nos Horsebath, essas mesmas características surgem com naturalidade, enriquecidas por influências de Gram Parsons e Doug Sahm.
Musicalmente, Another Farewell é uma extensão da sua própria arte visual: a capa mostra uma ilustração de cowboys à sombra, enquanto o mundo ao seu redor derrete ao sol, enquanto a contracapa surge como um postal da banda. O autocolante na capa anuncia “Heartland Psychodelia” — e são precisamente essas duas palavras que abrem o caminho para compreender o álbum como uma sucessão de sensações sobrepostas e contínuas, semelhantes a uma road trip pela música pastoral norte-americana. O tema do álbum não poderia estar melhor resumido na sua página do Bandcamp: “Another Farewell é um reflexo da sua vida na estrada, enraizado nas paisagens agrestes e em constante mudança do Canadá, e alimentado por um laço de amor, perda e busca.”
Though it’s not that I can’t understand
The weakness of a moving man
…
It’s hard to love me
Fecha os olhos, e a ascensão das cordas nos primeiros segundos introduz-te ao cosmic country da melhor forma possível. O som expansivo do álbum e as suas múltiplas camadas de instrumentos revelam logo a sua identidade, enquanto o piano honky-tonk impulsiona a música para a frente. Se, ao chegares ao primeiro refrão de Hard to Love, não estiveres já a ver o mundo em sépia, provavelmente fizeste algo de errado.
Lonely nights, lonely days
I run from the sun
And I hide in the shade
É impossível não derreter no assento com a canção que se segue. Lá fora o sol queima impiedoso, mas aqui dentro o conforto encontra-se à sombra, entre o órgão e as guitarras fantasmagóricas de “In The Shade” — a faixa que mais evoca os The Band.
“Only in My Dreams” é um western country curto e direto, com ecos dos anos 40, que desperta a memória de algo há muito escondido no fundo da nossa mente. O que é, não sei — mas parece que “Don’t Know What It Is” encaixa perfeitamente nesse sentimento de desprendimento, nesse não saber, e ainda assim continuar a viagem.
If all the words you could’ve told me are gone
That’s fine
But don’t forget to put it all on the line
When it comes
And bid yourself another farewell from love
É impossível não verter algumas lágrimas com a faixa-título do álbum. Esta, a minha favorita, transforma-se numa experiência contínua: pões-na em loop e, de repente, a velocidade do carro e a mudança da paisagem deixam de ser duas coisas distintas — tornam-se uma só corrente de memória e sentimento. A viagem deixa de ser apenas um caminho e passa a ser instinto, um fluir que envolve tudo ao redor.
O ritmo regressa com o vibrante “Train to Babylon”, enquanto “Never Be Another You” abre com um longo instrumental de surf, acrescentando mais uma influência ao álbum, antes de se encaminhar para um desfecho que faria Keith Richards orgulhoso.
While secret charms I’ll never know
They say you’re sweet but ya never show me
I’m gonna turn my lover loose
Em “Turn My Lover Loose” é impossível não cantar logo na primeira volta — e mais ainda não lembrar de Doug Sahm. É esta a canção que encerra a viagem: talvez não o fim que desejas, mas o fim de que precisas.
E quando o silêncio finalmente chega, percebe-se que Another Farewell não é apenas um conjunto de canções, mas uma travessia. Um disco feito de despedidas sucessivas, que ecoam entre jornada e destino. Um álbum que não se limita a revisitar tradições: reinventa-as, fazendo da estrada e do tempo os seus próprios instrumentos.