A Residência, projecto conjunto de First Breath After Coma e Salvador Sobral, passou por Lisboa numa noite de solenidade e experiência criativa.
Era uma sala de estar. Em palco. A sala da Casa Varela, em Pombal, onde os First Breath After Coma se juntaram a Salvador Sobral em novembro de 2024 para uma residência artística. Mas desta vez estava em Lisboa, no Teatro Maria Matos. Estavam os quadros nas paredes e os instrumentos caoticamente dispostos no espaço e o aquecedor elétrico. Mais um sofá e um aspirador e janelas de cada lado. As portas rangiam como se ouve no disco. Os candeeiros, todos eles. E, agora, connosco também a ver. Nós, o público das três sessões d’A Residência na capital, que aconteceram nos passados dias 13 e 14 de Janeiro.
Foram entrando em palco, à medida que se acrescentavam instrumentos à melodia. Salvador Sobral e os First Breath, um a um. Ligou-se um foco de luz, depois outro. Um piano destapado, uns acordes tímidos na guitarra, um esboço da melodia. Os motores aqueciam e a curiosidade do público que não sabia ao que ia aguçava.
A Residência, que foi espectáculo antes de ser disco, foi inteiramente recriada naquele palco. As oito músicas (incluindo o spoken word de Jenna Thiam), o espaço mental, o processo criativo. Os artistas entraram numa dimensão só deles, que terá existido mas que agora vive nas suas cabeças e onde não se entra completamente. É provável que seja intencional, o que acrescenta mistério à ideia e que funciona a par das canções que vão sempre parar a um lugar diferente daquele onde começaram. Eles estavam na sua cena. Nós estávamos a ver, a apanhar algumas coisas e outras nem por isso. Esse lado performativo, que torna partes d’A Residência inacessíveis, contribui, ainda assim, para o crescimento da ocasião e para a imersão do público no aquário sonoro e textual que ali se apresenta.
Foi também curiosa a desconstrução do próprio espectáculo que foi sendo feita ao contrário, à medida que se avançava no tempo e na apresentação das músicas. Foi ficando cada vez mais um ensaio, cada vez mais uma discussão de finais e de acordes, cada vez mais um processo que tinha começado sólido. O cenário fechou o espaço num único plano que nos puxava, o desenho de luzes acompanhou as explosões de energia — de sinergia — que aconteciam volta e meia e que nos iam relembrando da imprevisibilidade e da maravilha daquele concerto.
Naquela noite, A Residência não nos chegou em bruto, mas chegou-nos com toda a sua intimidade e com toda a entrega pessoal que abarcou. Numa hora, Salvador Sobral e os First Breath After Coma divertiram-se à grande, despiram-se de uma camada de protecção e mostraram parte do seu pensamento. Aproveitaram para brincar e para experimentar, para juntar o melhor do livre arbítrio e da seriedade de criação. Foram honestos, dentro de toda a distância inextinguível, que impedia que se acedesse por completo à experiência. Sentiu-se, desde logo, o respeito que havia entre os instrumentos. Foi solene do início ao fim.
Dentro da consciência conjunta de que no palco se representava e se tentava traduzir a intensidade das duas semanas que aqueles seis artistas tinham vivido fechados numa casa, a jogar futebol e a criar, assistiu-se a um espectáculo pluridisciplinar refrescante e, sobretudo, a uma fusão criativa magnífica.
O espectáculo estará em Ílhavo no próximo dia 24 e disponível na RTP Palco. A experiência ao vivo é imperdível, mas assim sempre podemos matar saudades.
Fotografias: António Vouga















