Um primeiro álbum surpreendente e entusiasmante de (mais) uma banda britânica. O brexit, definitivamente, fez-lhes bem…
A cidade de Leeds deu-nos recentemente os Yard Act, mas pelos vistos há mais substância a florescer na cidade do norte de Inglaterra. Os English Teacher, formados em 2020, lançaram em Abril deste ano o seu primeiro longa-duração, este This Could Be Texas, e a estreia não podia ser mais auspiciosa, já que temos em mãos um potencial candidato a disco do ano.
Os English Teacher demonstram uma inquietude invulgar: todas as músicas têm reviravoltas ou complicações, seja uma mudança de compasso, um floreio instrumental ou uma repentina wall of sound, na qual esbarramos de frente. O caso mais notório disto será “Broken Biscuits”, em cujos quatro minutos, uma multitude de momentos diferentes ocorrem – começa por um piano sozinho, entra a voz de Lily Fontaine, de seguida guitarra e bateria. Ao fim de minuto e meio de música já a sincronização entre instrumentos está instalada, mas não se pode chamar a esta sincronização uma harmonia, pois cada peça parece estar a puxar em diferentes direções, o que nos deixa sem saber para onde irá a música evoluir daí. Os laivos de Black Country, New Road são bastante perceptíveis, mas essa é só uma das influências dos English Teacher, que “cresceu” juntamente com Squid e Black Midi, numa fornada de bandas saídas do Sul de Londres, sendo o pub Windmill o epicentro do movimento.
Mas os English Teacher vão para lá do experimentalismo inerente às supracitadas bandas, sabendo também beber de outras icónicas como Radiohead e Smiths para incluir nas suas canções um questionamento sobre o tempo em que vivemos, fazendo-o com uma mistura de humor e preocupação. Os momentos mais pesados são sempre contornados com curiosos twists, carregados de alegria e esperança – uma música com o título “The Best Tears of your Life” resume bem o ponto que pretendo demonstrar. Já em “R&B” a vocalista contorna uma questão potencialmente racial, afirmando que “Despite appearances, I haven’t got the voice for R&B”, respondendo a vozes à sua volta que, pela cor da sua pele, lhe quiseram colar um estereótipo fácil e preguiçoso.
Deixei para o fim as minhas duas músicas preferidas, a homónima “This Could Be Texas”, que começa só com voz e piano e vai crescendo em ritmo e intensidade até atingir o apogeu aos quatro minutos, momento no qual abrimos o pára-quedas e continuamos a descida a pairar sobre a paisagem. E “Nearly Daffodils”, com uma linha de baixo contagiante, aura punk-rock envolvente, a grande malha do disco.
This Could Be Texas é um disco caótico, comovente, fascinante, pretensioso, e delicioso por ter tudo isto junto. Temos a oportunidade de apanhar a banda no momento certo, já que constam do cartaz do MEO Kalorama, com actuação marcada para o próximo dia 30 de Agosto.