Depois de Yellow, o brilhante álbum de 2012, Emma-Jean Thackray regressa com Weirdo. Considerá-lo um disco esquisito, só pode ser esquisitice.
É um extraordinário regresso, sobretudo por pensarmos que depois do aclamado álbum anterior, poderia ser difícil atingir, com este, o mesmo nível alcançado com Yellow. Somos apreciadores de Emma-Jean Thackray, é um facto, mas mesmo que não fosse esse o caso, não poderíamos ficar indiferentes ao mais recente trabalho da artista inglesa que, segundo a própria, foi um trabalho que lhe salvou a vida. Também nos vai salvando a nossa, há que dizê-lo, neste calor veranil, que assim como chega, também desaparece um pouco. A liberdade criativa que nele se encerra, as dinâmicas dos temas, os interlúdios (ou, se preferirem, os momentos mais curtos do disco, mas que são quase canções, ou projetos de canções), a voz de Emma-Jean e os verdadeiros achados dos arranjos presentes durante quase uma hora de música, garantem que Weirdo é tudo menos esquisito, tradução literal do enganoso título. Olhá-lo com desconfiança, apenas por ser um disco menos cantarolável, é um perfeito disparate, tal a quantidade de momentos tão bons que nele encontramos. Enfim, Weirdo é um novo triunfo de uma mulher que nunca escondeu ter autismo, défice de atenção e hiperatividade. Nada disso se faz notar no seu percurso, já agora., antes reforça a ideia de se tratar de uma artista verdadeiramente especial.
A abertura do disco faz-se com a curta “Something Wrong With Your Mind”, em que o verso cantado (esse mesmo, que também é título) parece ser um recado que a autora dá a si própria, afastando-se o criador do objeto criado. Depois, espalhadas pelos restantes dezoito temas, há o encanto de sempre, quando ouvimos Emma-Jean Thackray. O funk-soul-jazz que a caracteriza tem inúmeras matizes e, mesmo assim, as referências aos estilos musicais presentes em Weirdo não se esgotam nas atrás mencionadas. As temáticas cantadas são, também elas, díspares e, por vezes, avassaladoras, espécie de auto-diagnóstico das suas vivências mais recentes: dor, sofrimento, depressão e morte. Mas porque também neste assunto Weirdo não se limita a esses instantes (demorados e perigosos) da mente, há também versos cómicos e inusitados, bastando ouvir “Fried Rice”, por exemplo. A arte faz-se de pedaços, de cacos de vidro que espelham o direito e o avesso do artista, são a faca, mas também o corte, vísceras do peixe de Tobias que expulsa os demónios da alma sem quaisquer contemplações. Por isso, como anteriormente referimos, Weirdo salvou-lhe a vida. Não devemos entender, provavelmente, essa crua declaração como metáfora plena e total. Há temas cujos títulos são, aprecie-se, “Please Leave Me Alone”, “Save Me” e “Wanna Die”. Talvez isso queira mesmo dizer qualquer coisa… A letra deste último tema mencionado é, de facto, perturbadora. Toda ela. Vejam apenas estes versos como exemplos: “I don’t wanna die, I just wanna sleep forever”. Ou, como acontece no refrão, quando Emma-Jean Thackray canta assim: “I am doing fine, I’m not gonna cry / I don’t wanna die / Except for all the times I do”. No entanto, o groove que acompanha todos estes temas é irresistível, o que faz da arte o remédio perfeito (há um tema intitulado “Remedy”, note-se) para a redenção e para o reencontro com a vida, sobretudo depois do seu parceiro de longa data (Matthew Gordon) ter falecido em 2023. Ficou perdida, Emma-Jean Thackray, e ter-se-á encontrado, se assim pudermos dizer, neste soberbo Weirdo. Por tudo isto, pelo desconcerto bom e viciante do álbum, e numa altura em que se trazem tantos artistas a solo luso, fica o recado para quem de direito: já vai sendo tempo de a vermos por cá.
Weirdo é um álbum notável, como perceberá assim que encostar a agulha à rodela de vinil. Não tenha pressa, mas apresse-se. É certo que Weirdo não fugirá para parte incerta, mas seria imperdoável não se fazer íntimo dele.