Por um breve momento, tentei lembrar-me de uma época em que nem sequer conhecia o nome Dinosaur Jr.. E, na verdade, não podia ter tido uma introdução mais atípica. Andava eu perdido pelas avenidas da música de Seattle quando tropecei numa banda mais pesada do que o próprio tempo — os Tad. Uma mistura agreste e coberta de flanela, com alguma da riffalhada mais suja alguma vez exportada do Noroeste Pacífico dos EUA para o mundo.
Inhaler era a estreia dos Tad numa editora major, com uma inesquecível capa de dois cães e um carro telecomandado. Mas foi um nome ainda mais curioso que me chamou a atenção: J Mascis. Não se tratava de nenhum membro da banda, mas sim do produtor do álbum. Após uma rápida pesquisa no meu navegador preferido de 2013, concluí que esta figura era, na verdade, o inconfundível guitarrista de uma banda com um dos nomes mais fixes que tinha ouvido até então — Dinosaur Jr.
Uns álbuns de Mark Lanegan mais tarde, descobri que o grande compincha de J, na altura, era Mike Johnson — braço direito de Lanegan e portador do cabelo mais bem oxigenado do rock alternativo dos anos 90.
O rótulo estava rapidamente feito: os Dinosaur Jr. eram uma banda com um nome porreiro e ilustrações catitas, de apenas dois elementos — um com um nome incompleto e o outro a complementá-lo, loiro, de cigarro na boca e fato sempre impecável.
Corta drasticamente para 2025 e cá estou eu, espremido algures entre Wassaic e Amenia, no estado de Nova Iorque, após três anos intensos a escarafunchar a internet por raridades e curiosidades, a curar todo um espólio de bootlegs ao vivo com outros fãs dedicados e a co-moderar o subreddit da banda. A caminho do meu sexto concerto de Dinosaur Jr., o terceiro de 2025, o quinto em países diferentes — e o primeiro no país natal da banda. Aliás, bem perto das suas raízes, em Amherst, Massachusetts.
Dado o local remoto, revejo várias vezes o plano: em Grand Central Station, apanhar um comboio direto para Wassaic, fazer duas horas de viagem e caminhar cerca de cinquenta minutos por um trilho pedestre até chegar à cidade de Amenia, onde decorreria o Highlands — um evento híbrido entre hipismo, música e comida razoavelmente cara.
Problemas à chegada? A carteira não está propriamente recheada, o telemóvel não está propriamente carregado e o trilho não está propriamente iluminado.
Todos estes — e outros — problemas desaparecem ao ouvir o longínquo soundcheck, onde a banda toca “Crumble”, um dos inúmeros lamentos incompreendidos de J, dirigido a quem quer que o tenha deixado ferido, algures no tempo, com a ajuda de um fuzz característico e letras tão dispersas quanto a paisagem à minha volta.
A banda, neste caso, é a formação original: criada em 1984, extinta em 1989 e reunida desde 2005. O lugar de baixista está novamente com o seu dono original, Lou Barlow, que toca descalço, agitando o instrumento como só ele sabe. A ele junta-se Murph, na bateria, com as baquetas recuperadas após as ter abandonado em 1993, depois de uma digressão claustrofóbica pelo festival Lollapalooza.
Juntos com J Mascis, são os originais e genuínos Dinosaur Jr.
Mas não se iludam — o cérebro por trás de tudo é o de Mascis: vocalista, guerreiro da Jazzmaster, dono de pedais daqui até à China, membro constante da banda, baterista e, quando necessário, baixista.
E, aqui reunidos, abrem (injustamente) para os Third Eye Blind, perante uma plateia dividida — literalmente — por um espaço entre bilhetes premium e acesso geral, e figurativamente entre amantes de Third Eye Blind, amantes de Dinosaur Jr., e curiosos à procura de decibéis.
Antes de passarmos ao concerto, convém ressalvar: a esta altura da noite, o meu sentido de sobrevivência está em alerta máximo. Sim, cheguei são e salvo. Mas com a preciosa ajuda da luz do dia. A partir de agora, a escuridão instala-se. E, nas estradas do Tio Sam, não há iluminação que me valha. Aliás, não há iluminação sequer. Voltar à estação será um problema.
Como se isso não bastasse, o telefone está a 1%. Não vai aguentar, de certeza, as próximas quatro horas e tal — quanto mais para mostrar o bilhete ao primeiro revisor, ou ao segundo. Sim, porque, ao contrário do comboio de ida, o de volta não é direto. E estamos a falar dos últimos dois comboios da noite para o centro de Nova Iorque.
Portanto, antes do concerto começar, vou à procura de alguém que me possa ajudar.
O segurança não tem forma de o fazer. Não avisto ninguém com power banks, e o técnico de som desaparece entre a minha dúvida parva sobre se o deveria ou não incomodar. Restam as bancas de comida. Meto-me prontamente na que parece mais apetitosa — dentro da fraqueza gastronómica. Mas o azar continua a ser o prato principal: quando chega a minha vez, desembolso 18 dólares por um frango completamente arruinado por um molho agridoce enjoativo.
Pior do que isso? O homem não tem o carregador certo. Pronto, que se lixe. O concerto está quase a começar.
Posiciono-me o mais à esquerda da montanha de amplificadores Marshall que J tem em palco e continuo a ruminar nos possíveis problemas que me esperam quando o concerto terminar. Envio, com a minha réstia de bateria, uma mensagem desesperada a um antigo manager de redes sociais e atual guardião de um portal dedicado à banda, o Freakscene.net. Diz-me que está a conduzir e que, apesar de tentar, não tem solução imediata para o meu problema.
Atrás de mim, ouço um casal a ponderar se valerá a pena ver Evan Dando e os seus Lemonheads numa data próxima. Talvez por desespero — ou apenas por vontade genuína de opinar — meto conversa. Poucos minutos depois, os Dinosaur entram em palco com a pulsante “The Lung”, uma das faixas ruidosas daquele que é o álbum essencial da banda: You’re Living All Over Me (1987).
Uma faixa fortemente dominada pelas guitarradas estridentes e melódicas de J, enquanto canta as duas únicas frases da música: “Nowhere to collapse the lung / Breathes a doubt in everyone”.
Não que a configuração original da banda não brilhe em músicas fora do seu núcleo clássico, mas o trio está sempre mais bem oleado quando surge a oportunidade de tocar algo dos primeiros três álbuns. É compreensível — são músicas que, na maioria dos casos, nunca saíram dos alinhamentos e vivem hoje da memória muscular, sempre prontas como aquela especialidade da casa que nunca falha.
Mais do que merecido, o álbum de destaque é claramente You’re Living All Over Me, completo com a transição entre “Kracked” e “Sludgefeast”, e a obrigatória “Little Fury Things”, com Lou Barlow a inspirar todo o ar possível antes de soltar as interrogações que abrem a canção.
J Mascis não é fã de surpresas nos alinhamentos — estes variam apenas moderadamente, salvo celebrações integrais de álbuns — e, sendo ele o detentor da palavra final, o concerto é exatamente o que se pode esperar dos Dinosaur Jr. em 2025. Não estou a apedrejar ninguém, é simplesmente o que é.
Segue-se uma pitada de Beyond com “Been There All the Time”; Where You Been marca presença com a devastadora “Out There” e a airosa “Start Choppin”; e, claro, Bug e Without a Sound, dois dos álbuns menos queridos de J, surgem ironicamente representados pelos maiores êxitos da banda — “Freak Scene” e “Feel the Pain”.
Pelo meio, numa única música, Lou passa para a guitarra e J assume o baixo em “Garden” — uma das faixas de destaque do mais recente Sweep It Into Space, disco onde Barlow volta a ter direito às suas duas composições por álbum. Uma tradição que certamente continuará no próximo disco, já em esculpimento no estúdio.
Mas antes disto tudo — antes sequer de o Jr. vir depois do Dinosaur — existiram os Deep Wound, uma banda de hardcore com J e Lou Barlow, nascida de horas e horas a ouvir Discharge, Minor Threat, Anti-Pasti e SS Decontrol. Esses rasgos de agressividade sobreviveram e ecoam, especialmente na fase inicial dos Dinosaur, antes de a relação entre Lou e J se ter desintegrado num mar de baixa auto-estima, admiração e indiferença.
A própria banda vivia desse atrito constante: entre os solos barulhentos e inconfundíveis de J e o baixo pulsante e vocais agressivos de Lou. Uma das provas dessa fórmula é a versão de “Just Like Heaven”, dos The Cure, lançada como single em 1989.
E porque conto isto tudo? Porque a antepenúltima música do alinhamento é precisamente “Just Like Heaven”, seguida de uma habitual versão de “Training Ground”, dos Deep Wound — desta vez com direito a uma visita de Scott Helland (baixista da banda original), que fecha tudo com um Rickenbacker em punho.
Para encerrar a noite, os Dinosaur libertam a cavalaria toda ao esticar “Gargoyle” — música de pouco mais de dois minutos no álbum homónimo de estreia (1985) — para uma jam entre sete e dez minutos, que lembra a todos que não há nada fossilizado nestes dinossauros grisalhos.
Quanto à minha sobrevivência? Não só fiz dois amigos novos, como consegui carregar o telemóvel e arranjar boleia até à estação de comboio, onde encontrei uma garrafa de Canada Dry para suportar as duas horas até ao próximo comboio, na companhia da autobiografia de Evan Dando, Rumors of My Demise, lida pelo próprio. Nunca cheguei a perceber se a garrafa já tinha sido aberta, mas limpei o gargalo várias vezes antes de dar o primeiro golo.
No refrão de “Quest”, também do primeiro Dinosaur, J Mascis canta “I’d love to meet the one / Who broke my heart” da forma mais frágil possível.
Não sendo isso possível, diria que acabar sozinho — depois de um concerto remoto de Dinosaur Jr., agarrado a uma garrafa abandonada de Canada Dry, que podia muito possivelmente ser urina de um estranho, no meio de uma cabine aquecida e esquecida, rodeada pela escuridão de Wassaic, à espera do último comboio para Nova Iorque — está lá perto.
Mesmo muito, muito perto.
Texto de Tiago Laranjo. Foto de Inês Silva, de concerto no Primavera Porto 2022