No passado domingo à noite celebrou-se o culto. Os Deafheaven voltaram a Portugal para arrasar uma República da Música a transbordar de almas fiéis!
Para quem quer que me esteja a ler e que seja um fã à séria de Deafheaven e de Portrayal of Guilt, eu preciso de fazer um pacto convosco. O que estão prestes a ler é de alguém que não só não ouve as bandas regularmente como, e irão perceber, não as tinha sequer no seu radar. Estou simplesmente a ser sincero porque agradeço a quem quer que tenha clicado neste artigo e não quero iludir nenhuma alma negra na esperança de aqui encontrar uma análise profunda, incandescente e outro adjetivo bonito que queiram disparar.
Quero começar, ou recomeçar, por dar umas sinceras palavras de agradecimento à República da Música. Nenhuma sala, em Lisboa, me enche de tamanha estranheza e gratificação. É excelente ter mais uma sala perto de outra tão mítica (RCA), é excelente ter mais uma num bairro tão marcante para o lado mais barulhento da música portuguesa (Alvalade), mas é ainda mais importante louvar o movimento contrário que esta casa exemplifica. Num país rodeado de cinemas históricos transformados em templos duvidosos, é refrescante ver um templo duvidoso numa casa onde passa aquilo que mais queremos louvar – a música. Claro que tem uma planta minimamente estranha, mas confesso que faz parte do encanto (foi a minha primeira vez a ir até à mezzanine e o caminho até lá é algo de fazer lembrar os Spinal Tap). Quando meti aqui os pés, há um ano e meio, a sala estreava-se com um concerto de tributo ao João Ribas, figura lendária do punk nacional. Talvez por homenagem a alguém que também trilhou por caminhos desconhecidos, também eu andei por um chão de azulejo escorregadio – uma experiência ainda hoje inigualada em qualquer outra sala no mundo.
É com esta nostalgia recente que me enche o coração ver uma República da Música aos magotes, pela mão da Amplificasom (os mestres por detrás desse grande evento chamado Amplifest), graças a um tríptico capaz de escamar a pintura do mais negro dos tetos – falamos de Zeruel e Portrayal of Guilt a fazerem as honras para os meninos de São Francisco, na Califórnia, os Deafheaven.
Em paragens sónicas caracterizadas pela pujança vocal, e o resto da noite encarregou-se disso de forma exemplar, foi refrescante abrir as cerimónias com algo ligeiramente diferente. Os jovens Zeruel carregaram nos instrumentos com chefia na mão, ao mesmo tempo que transmitiram uma leveza impressionante (que também era pesada!) aliados do que talvez fosse uma módica quantia de timidez no que é (tradicionalmente) um género muito dominado por posturas com demasiada testosterona. Não sei quanto aos presentes, mas fiquei com esperança de os ver mais acima num futuro cartaz.
Os Portrayal of Guilt entraram de forma gritante, precisamente para ensinar a quem tinha dúvidas do que era ou não era screamo, com o vocalista Matt King a conseguir definhar um público cada vez maior com a sua voz que se ouvia nos auriculares de comunicação interna do mais inocente funcionário do Continente Bom Dia ao fundo da rua. Sei que é uma frase gasta, mas não deixaram ninguém indiferente – muito menos o sistema de som do República da Música. Talvez não fosse artista que metesse para fazer novos amigos (depende do tipo de amigos que uma pessoa queira fazer, é verdade), mas ao vivo é de atirar a mioleira à parede e pedir mais.
Já o prato principal é dos Deafheaven, banda com culto apropriado, e que está no seu nono concerto em Portugal desde 2012 (o oitavo aconteceu um dia antes, no Mouco, no Porto), dois anos depois do seu aparecimento. George Clarke entra em palco como se tivesse sugado a energia de sobra ao resto das bandas e, basicamente, durante hora e meia, comanda o palco e o público como se não tivesse uma única preocupação no mundo – a não ser transformar cada pessoa numa poça de suor andante para fazer pandã com a sua própria t-shirt, rapidamente ensopada numa energia inigualável.
O motivo de visita é a promoção do novo álbum, Lonely People with Power, que leva a banda para território não tão familiar, continuando a missão do anterior Infinite Granite. Claro que a banda é pujante ao vivo e não há espaço para tais subtilezas (se é que podemos aplicar a palavra) quando o objetivo é ter um público completamente rendido e aos saltos antes de fecharem a noite com “Winona” com passagem garantida por inúmeros momentos de percussão inacreditável graças a um baterista relâmpago chamado Daniel Tracy. Atrás de mim ouvi “carrega na macaca!” mais do que uma vez. Acho que está tudo dito.
Os Deafheaven prometeram voltar, vamos ver se continuam a trazer a macaca porque a selva portuguesa cá os espera!
Fotografias: Rui Gato





























