Depois de vários anos de espera, o novo disco de Chet Faker surge num registo mais introspetivo e melancólico do que os trabalhos anteriores, ficando aquém do que o músico australiano pode fazer.
Nick Murphy demora bastante tempo a lançar discos como Chet Faker. Em 12 anos, ofereceu-nos apenas três: Built on Glass, de 2014, Hotel Surrender, de 2021 e agora este A Love for Strangers.
Ao longo destes anos, é natural uma evolução na sonoridade e este disco é um bom reflexo disso. Chet Faker apresenta-nos um trabalho mais minimalista, longe da exuberância eletrónica que marcou os primeiros trabalhos. A Love for Strangers surge como um exercício de contenção e maturidade emocional, embora se mantenha a mistura de eletrónica minimalista e soul etéreo, mas mais escondida debaixo das restantes camadas.
Enquanto Built on Glass respirava sensualidade e Hotel Surrender procurava uma abertura mais luminosa e expansiva, este novo disco prefere a introspeção. Há, em A Love for Strangers, uma sensação de recolhimento, embora em alguns momentos surja uma explosão expansiva. Logo em “Over You”, que abre o disco, a produção subtil e envolvente cria um ambiente de tensão, onde a voz revela alguma fragilidade ou vulnerabilidade. Não há aqui o impacto imediato de temas como “Gold” ou “Talk Is Cheap”, do primeiro disco e que catapultou Murphy para a fama.
“1000 Ways” aprofunda esse caminho, com um piano enevoado e electrónica delicada, continuando pelo mesmo registo em “Far Side of the Moon”. Só à quarta faixa, “This Time For Real”, é que o disco se começa a expandir, a tornar mais luminoso, mais dançável e mais ligeiro.
Regressamos à introspeção em “Can You Swim?”, uma delicada balada ao piano, a puxar ao sentimento, onde a voz de Faker se destaca. Em “Inefficient Love”, essa mesma crueza atinge o auge: é talvez a canção mais vulnerável do disco, aproximando-se da tradição soul que sempre esteve latente na música de Chet Faker, mas agora quase despida de artifícios electrónicos.
Antes disso tínhamos passado por “Remember Me”, que vai roubar a sonoridade ao soul dos anos 70. Esse som ambíguo também surge em “The Thing About Nothing”, uma bonita colaboração com aLex vs aLex, prosseguindo com delicadeza em “A Level of Light” e terminando em alta com “Just My Hallelujah”, cinco minutos de piano etéreo e suave, com a voz de Faker a acompanhar.
Comparado com os seus trabalhos anteriores, A Love for Strangers não pretende reinventar a fórmula nem recuperar a energia imediata do passado. É mais pausado, quase meditativo, que poderá surpreender quem esperava um regresso às pistas de dança intimistas que o celebrizaram.
Se Built on Glass foi a afirmação de um talento singular e Hotel Surrender a tentativa de expansão, A Love for Strangers fica aquém do que Faker poderia fazer.