Com o novo EP, Transmutations, Caroline Lethô explora o improviso como motor criativo e defende uma cena eletrónica ligada à comunidade, à ecologia e à diferença.
Caroline Lethô, produtora e DJ algarvia, regressa com Transmutations, um EP que condensa a sua trajetória nómada e a recusa em caber em rótulos fáceis. Entre a energia crua da cidade e a calma do regresso à natureza, a produtora e DJ algarvia transforma improvisos em faixas que respiram identidade, ecologia e experimentação.
Falámos com Lethô sobre a criação de Transmutations, o seu live act em permanente mutação e a forma como imagina uma cena eletrónica capaz de resistir à homogeneização global sem perder a ligação à comunidade e ao instinto.
Altamont: O novo EP nasceu de fragmentos de um live set. O que te interessa neste processo de transformar improviso em obra editada?
Carolina: Há algo de muito verdadeiro no que acontece no improviso-live, no corpo, no
momento. Depois de tocar umas quantas vezes este live, senti que havia ali um potencial raro, algo que podia ser intemporal. Mas transformar isso numa obra editada foi um processo demorado e desafiante. Quis manter a essência emocional, aquela vibração quase instintiva, mas ao mesmo tempo dar-lhe uma nova forma, mais cuidada e intencional. Foi como traduzir algo vivido com intensidade para uma escuta mais íntima, que pudesse atravessar o tempo e chegar aos outros com a mesma força.
A: Cada faixa traduz um estado emocional muito específico. Costumas compor a partir de vivências ou procuras primeiro um conceito sonoro?
C: É um misto — está sempre tudo muito ligado. Dependendo do que estou a viver,
apetece-me explorar certos sons, certas texturas. As emoções acabam por ser quase sempre o ponto de partida, mesmo quando não são totalmente conscientes. Às vezes são muito claras, outras mais difusas, mas é a partir dessa escuta interna que o som começa a nascer. Então é como se a intuição viesse primeiro… e o entendimento chegasse depois.
A:”Transmutations” parece marcar um regresso ao instinto. Sentiste necessidade de simplificar para reencontrar o essencial?
C: Sim, marca uma mudança profunda… que pode mesmo ser vista como um regresso ao instinto, de certa forma. Senti necessidade de voltar ao meu centro, de parar de ouvir tanto barulho — externo e interno — e desapegar do excesso, das expectativas, até das minhas próprias exigências. Foi um exercício de confiança na minha intuição, de fazer menos para sentir mais.
A: O teu live act está em constante mutação, tal como o EP sugere. O que diferencia esta nova fase do que apresentaste em anos anteriores?
C: Agora estou menos preocupada com formas fixas. Sinto-me mais livre para explorar
diferentes atmosferas e intensidades, sem ter de seguir uma estrutura definida ou responder a expectativas de pista. Esta nova fase é mais aberta, mais emocional e até mais crua, em certos momentos. Dou-me espaço para escutar o que o momento pede — às vezes é mais introspectivo, outras vezes mais pulsante — mas sempre com a intenção de criar uma experiência sensorial e honesta, tanto para mim como para quem escuta.
A: Trabalhas com gravações de campo e camadas atmosféricas. Como decides o que fica e o que se perde no processo de criação ao vivo?
C: É muito por feeling — deixo a música guiar, mas também o corpo. Algumas texturas ganham vida num certo espaço ou contexto e simplesmente desaparecem noutros. É uma escuta ativa, momento a momento. O que fica é o que ressoa, o que faz sentido ali, naquela hora. E o que se perde… talvez não se perca de verdade, talvez esteja só à espera de regressar noutra forma, noutra ocasião.
A: O palco é um lugar de catarse ou de experimentação?
C: Para mim, é os dois. É catarse quando me deixo atravessar pela música, quando me
entrego totalmente ao momento. E é experimentação quando arrisco, quando brinco com o desconhecido e me permito seguir caminhos inesperados. O ideal é quando esses dois estados se encontram — e consigo partilhar essa energia com quem está a escutar.
A: As tuas raízes algarvias, africanas e indianas coexistem no teu som. Essa fusão é intuitiva ou consciente?
C: É sobretudo intuitiva. São camadas que vivem em mim e que emergem sem que eu precise de chamar. Às vezes percebo depois que um certo ritmo ou textura tem a ver com alguma herança ancestral, mas não é algo que eu planeie.
A: Vieste do jazz, passaste pelo techno e hoje estás num território difícil de rotular. Ainda sentes necessidade de dialogar com géneros ou preferes escapar a qualquer ‘caixinha’?
C: Sinto que já escapei das caixinhas há algum tempo (hehehe), mas gosto de dialogar com géneros – não como limites, mas como linguagens que podem enriquecer a música.
A: Tens uma ligação muito clara com a natureza e com a ideia de comunidade. Como
equilibras esse lado com a intensidade e velocidade do circuito internacional?
C: Nem sempre é fácil. Às vezes sinto que preciso de desaparecer para me reconectar comigo mesma e com a natureza. Mas aprendi a criar os meus próprios ritmos, a escolher com consciência onde e como quero estar, e a dizer que não quando necessário. Voltar a lugares que me recarregam ajuda-me a equilibrar a intensidade do circuito internacional com a minha necessidade de presença e conexão.
A: O festival Mud Re Terra reflete uma visão de encontro ecológico e artístico. Qual é, para ti, o papel da música na transformação coletiva?
C: A música é uma linguagem sem fronteiras. Pode abrir corações, gerar empatia e criar
sentido de comunidade. Num mundo cada vez mais fragmentado, precisamos de espaços onde possamos sentir e sonhar juntos. A música tem esse poder de conectar, de criar experiências compartilhadas que nos fazem refletir, inspirar e até transformar — tanto individual como coletivamente.
A: Num momento em que a cena eletrônica corre o risco de se tornar demasiado
homogeneizada, onde encontras espaço para a diferença?
C: Encontro nas margens, nos projetos pequenos, nas comunidades locais, e nas experiências que não seguem fórmulas. Também nos encontros entre disciplinas, quando o som cruza performance, ritual ou natureza. É nesses espaços que a diferença respira, onde se experimenta, se arrisca e se escuta
A: Qual seria a tua “transmutação” desejada para a cena eletrónica dos próximos anos?
C: Gostaria de ver uma cena mais humana, diversa e com mais escuta. Menos egos, mais presença. Menos velocidade, mais profundidade. Que os palcos voltem a ser espaços de comunhão, de experiência partilhada, e não apenas de consumo. Que a música possa curar, transformar e conectar — e não apenas entreter.


