Há discos que não precisam de reinventar nada para soar a novidade. All The Right Weaknesses, o segundo álbum dos Brown Horse, é um desses casos: um retrato honesto de uma banda em crescimento, que encontra força nas fragilidades e transforma o familiar em algo genuíno.
Não mais de um ano após o lançamento do seu álbum de estreia, Reservoir, os ingleses Brown Horse regressam com All The Right Weaknesses. Um disco que se afasta um pouco do anterior, tanto no método como na sonoridade. Enquanto o primeiro mostrava uma banda que fazia a transição de um grupo folk que tocava em pubs na sua cidade natal, Norwich, para uma banda em ascensão, este novo trabalho demonstra uma rápida evolução de um grupo em digressão e a tocar com mais intensidade. Se o álbum de estreia foi composto, em grande parte, por um único membro, este novo disco reúne canções escritas pelos outros integrantes, evidenciando a maturidade que a banda alcançou ao longo do último ano.
Mas não se enganem: a banda formada por Emma Tovell (baixo, pedal steel, banjo), Nyle Holihan (guitarras, voz), Rowan Braham (teclados, acordeão), Patrick Turner (guitarras, voz), Ben Auld (bateria) e Phoebe Troup (guitarras, banjo, baixo, voz) demonstra, em All The Right Weaknesses, a mesma sensibilidade que se espera de um grupo folk de pub, onde a reverência ao passado continua a ser um dos seus maiores valores. E não interpretem isto como algo negativo — os Brown Horse não procuram revolucionar o género, mas sim trazer canções fresquíssimas, com a mesma energia e emoção que nos cativam enquanto fãs de Uncle Tupelo, Jason Molina, Lucero ou Drive-By Truckers. E isso, convenhamos, não é nada mau.
A arte da capa, pintada por Emma Tovell, ilustra na perfeição a direção tomada pela banda neste álbum — uma colcha de retalhos que reflete as múltiplas influências e o contributo variado dos seus membros. Já os encartes revelam a sensibilidade punk que está na própria origem do género.
Liricamente, parece pouco importar de quem partem as letras — os Brown Horse encontram prazer em descrever o quotidiano, detendo-se em pormenores que tornam cada canção mais viva. Essa atenção ao concreto não só acrescenta beleza às letras, como também nos aproxima das histórias que contam.
“Verna Bloom”, a faixa que abre o álbum, com o seu início lento e o chorar da pedal steel, estabelece os temas de distância, passagem do tempo e perda que atravessam o restante do disco. Além disso, as letras, juntamente com a interpretação, transmitem — ainda que de forma indireta na maioria das vezes — um sentimento de fadiga, aceitação e resiliência.
Em seguida surge “Corduroy Couch”, a faixa que me cativou por completo logo na primeira audição e me fez perceber que havia algo de especial nesta coleção de canções. Com o revezamento de vozes e os duetos entre Patrick e Phoebe, o tema da passagem do tempo e da inevitável erosão da vida mantém-se intenso:
In lives that have no second act
We can go downtown
We can buy some gum
We can hang aroundEvery tide takes a little more of the shore
I used to wanna stick around forever
But I don′t want to anymore
“Dog Rose”, por sua vez, escrita por Emma, traz-nos um crescendo lento, típico de Songs: Ohia, que se transforma num tema contagiante à maneira dos Drive-By Truckers. O dinamismo e a coerência das canções são dos pontos fortes do álbum. All The Right Weaknesses, escrita por Rowan Braham, que surge de seguida, é um slacker rock de andamento médio e tom reflexivo, a fazer lembrar os últimos tempos dos Uncle Tupelo. Uma das melhores letras do disco, aborda o tema recorrente da mudança com um toque de humor e leveza:
Yeah, I’ll take all the drinks
These tokens can afford
Cause then at least the music′s
Still making money for my landlord
There’s no clocking off
I guess it takes forever, whatever you do
You can write on my tombstone
“Business doing pleasure with you”
From Jurassic Park
′Til it all going dark
Business doing pleasure
Não há realmente uma faixa fraca na sequência, com todas as influências referidas no início a revezarem-se e a dar as caras uma de cada vez. Não poderia deixar de mencionar “Radio Free Bolinas”, escrita por Nyle Holihan, com o seu baixo pulsante e a parede sonora construída de forma inesperada pela presença do lap steel e do banjo — é fácil imaginar a energia que esta canção deve transmitir ao vivo.
No conjunto, All The Right Weaknesses confirma os Brown Horse como uma das bandas mais interessantes do alt-country — seja lá o que isso for —, algo que se torna ainda mais curioso por se tratar de um grupo europeu. O álbum consolida a identidade do conjunto sem perder a frescura de quem ainda está a descobrir o seu próprio som. Há aqui uma honestidade rara — tanto nas letras como na execução — que faz destas canções algo mais do que simples homenagens a quem veio antes.