À noite, todos reinámos na poeira do sol.
Bacuri – é o fruto de uma árvore nativa da Amazónia e também uma alcunha carinhosa para um bébé ou criança pequena. A última quarta-feira de Abril foi sinónimo desta dualidade de alegria e doçura, se assim se pode falar de rock psicadélico.
O Musicbox esgotou para ouvir os brasileiros Boogarins e o público estava cheio de… portugueses. Na primeira de 4 datas marcadas em Portugal para apresentar o seu mais recente trabalho Bacuri, os Boogarins ainda agendaram Braga e São João da Madeira. Lançado no finalzinho de 2024, Bacuri é o seu quinto disco, que vieram para apresentar integralmente a uma sala cheia de vontade de voltar a ouvi-los ao vivo. Um álbum recente mas já conhecido de boa parte da audiência.
O que inicialmente na banda trouxe espontaneidade e podia ser visto como ingénuo, já era o reflexo de um colectivo que continua a trabalhar em parceria com o que a vida lhes vai colocando no caminho, deixando e fazendo as coisas acontecerem com naturalidade e fluidez, abraçando as diferenças do processo criativo de acordo com a fase da vida em que se encontram. Sem deslumbramento e os pés no chão.
Se com os álbuns Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida a sua música foi apelidada de mais densa e complexa pela exploração e construção notoriamente feitas em estúdio, este último trabalho voltou a ser gravado inteiramente em casa. Algo mais estruturado, feito com tempo, onde os 4 elementos do grupo assumem o papel de vocalista sem deixar de se complementar de forma igualmente natural. Tal como os anteriores, não deixa de ser um disco com uma aura lírica, que vem em camadas, mas onde se sente a necessidade de passar uma mensagem de forma mais clara.

Desde a primeira vez que cá tocaram, em Julho de 2014, a banda já completou várias tournés no mundo inteiro, esgotou salas e correu os maiores (e menores) festivais de música da península ibérica, boa parte da Europa e Estados Unidos. No dia 30 sentiu-se a riqueza dos arranjos, as brincadeiras com o micro, a variedade de efeitos dos pedais, diferentes texturas, o fio condutor da homenagem à dupla sertaneja Chrystian & Ralf (num dos novos temas). Mas a essência continua a ser fazer música psicadélica que nos “abre os sentidos”.
O Altamont acompanha a banda desde o início e já vários artigos foram escritos a respeito, portanto não deixa de ser gratificante presenciar como a promessa inicial de sucesso se confirma, que a evolução acontece e a música enriquece, tal como o espírito e o carinho pelo público. “Chama que nóis volta, chama que nóis volta!” E voltaram. Porque os concertos sempre foram lugar de convívio. E ficariam enquanto os deixassem, partilhando temas a vozes com o público, como os mais antigos “Infinu”, “Doce”, “Benzin”, “Foimal” e por fim “6000 Dias (Ou Mantra Dos 20 Anos)”.
Deixaram ainda o convite para Musicbox no dia seguinte, e sorrisos. Doces.
Fotografias: Rui Gato


















