Ainda escaldados com resultado das eleições nos Estados Unidos da América, nada melhor que um americano muito especial para percebermos que a América de Trump não é só armas, poluição e processos legais bilionários. Há quem continue numa interminável procura de respostas e soluções para questões profundas.
Nas deambulações peregrinas que a música tem vindo a fazer desde a sua aparição, em todas elas, há uma que nunca se mistura. A orfã mal amada, que ninguém sabe quem são os seus progenitores; a que vem das máquinas, e que pelas máquinas foi aceite como filha perfeita. Será por ser uma frágil recém nascida, em comparação com a restante que já se ouve há milhares de anos? Serão as desumanas máquinas o frio muro que nos aparta do som e de quem o inventa?
É importante relembrarmos que a música electrónica não surge com os alemães em 1970. As experiências, mais ou menos eruditas, com a electrónica, começaram formalmente a partir do início do século dezoito. Houve mesmo abordagens mais clássicas, mas só mais tarde a cultura popular abraça o conceito com apaixonada convicção.
Curiosamente, tenho assistido nos últimos anos, em termos de percurso de bandas rock, uma inevitável tendência a confluir para universos mais electrónicos. Após um circuito inicial regular, na sua natural evolução, essas bandas e projectos inicialmente de carácter mais rock, acabam por se tomar de amores pelas máquinas. O que não falta por aí são exemplos: Arcade Fire, TV On The Radio, Tame Impala, Yeah Yeah Yeahs, apenas para nomear alguns.
Os próprios LCD Soundsystem que usam electrónica em massa, embora passe muitas vezes despercebida (sintetizadores analógicos), não se caracterizam por ser uma banda de música electrónica. Preferem antes identificarem-se como embaixadores de tudo o que o punk deixou em aberto.
Sejamos realistas. As máquinas chegaram para ficar. É sabido que não partilham da graciosidade dos restantes instrumentos- acústicos ou eléctricos. Mas serão eternamente desdenhadas pelos puristas? Terá a música espaço para receber mais intervenientes dignos de categoria disciplinar? O melhor é irmos directos ao assunto e reflectirmos enquanto descobrimos os recantos estéticos de Bill Converse no seu clássico Meditations / Industry. Música para pensar.