O novo álbum de Bia Maria, Qualquer Um Pode Cantar, é um dos mais importantes marcos da música portuguesa deste ano.
Nem qualquer um pode cantar assim. Arrepia-se-me a pele, eriçam-se-me os pelos dos braços e rebenta uma onda de emoção ao ouvir os primeiros segundos de “Micronódulos”. Saí do metro e sentei-me num banco da plataforma de São Sebastião, tinha de ouvir tudo isto, sentir tudo isto.
Bia Maria foi, é, e sempre será (enquanto lhe apetecer) uma contadora de histórias. Em Qualquer Um Pode Cantar, há um novo movimento, uma reinvenção de quem largou o realismo de contar, através elementos concretos e reais, o que sente e o que vê e passou a pintar o impressionismo das palavras – e, de facto, impressionou. Os cenários nítidos foram substituídos por lugares abstratos e intangíveis, mas não menos claros. Sempre conseguimos sentir que José não era flor que se cheire e ainda assim a cheiramos. Ainda não o perdoei a ele nem ao Roberto, as duas personagens de Mal me queres, Bem te quero (primeiro EP da artista) responsáveis pelo seu sofrimento amoroso. Soubemos a que sabia a felicidade de comer brócolos com queijo e o conforto do seu cobertor. Hoje, não só sabemos tudo isto, como o sentimos. Desde raiva e desolo de e se ninguém nos quer ver, já nem vale ser mulher e parirmos todo o mundo, do single “Marcha da Paridade”, ao vazio triste e melancólico de ter apenas um lenço de papel para limpar as mágoas when someone great is gone, como diz James Murphy.
Depois de Mal me queres, Bem te quero, com Tradição aprendemos como a música portuguesa é aos seus olhos, o que pode ser. Com “Dissabor” e a participação com RAKUUN no EP de remixes de A Flor de RIVAthewizard, descobrimos que Bia não é uma cantautora de voz doce e lágrimas como produto, mas contém multitudes de produção, de voz e identidade que se reconheceriam a cantar em turco, tocar flamenco ou a produzir reggaeton.
Este rio, que demorou o tempo que tinha de demorar a desaguar, finalmente o fez em Qualquer Um Pode Cantar, de uma forma que podemos dizer, Porra! Finalmente desaguou! Ouvimos o que é ser mulher, o que é ser precária neste país, na arte, na música, a falta de descanso, a cabeça sempre no próximo sítio, ouvimos o que é desamor, mais profundamente do que antes. Este desamor partiu-me o coração sem saber. Ouvimos, também, que cantar não é apenas para uns, mas sim para todos. Todos temos uma voz e deveríamos ter o poder de a usar, para cantar, para falar, para gritar e para sonhar. Cantar é viver e qualquer um pode e deve cantar. Bia tem uma vida, dores, alegrias, vontades e reivindicações. Estão aqui todas elas, como ela as vê, como ela as sente e como só ela as poderia cantar.