Um encontro improvável que rapidamente fez sentido. No Teatro Maria Matos, Benjamim e Tozé Brito cruzaram gerações e repertórios numa noite dedicada às canções e à memória que carregam.
O Conta-me Uma Canção regressou esta semana ao Teatro Maria Matos para a segunda noite, desta vez com a dupla Benjamim e Tozé Brito. O teatro encheu-se para celebrar canções. Se fosse preciso arriscar uma divisão na sala, dir-se-ia que o público se repartia 40%/60% entre fãs de Benjamim e de Tozé Brito. Um encontro improvável à partida, mas que rapidamente fez sentido.
É difícil pensar a música portuguesa sem passar por Tozé Brito. De “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, com o Quarteto 1111, ao genérico de Dartacão, passando pelo Festival da Canção com temas como “Papel Principal” ou “Amanhã de Manhã”, das Doce. São mais de 500 canções escritas e há uma forte probabilidade de qualquer português nascido nos anos 80, como eu, saber pelo menos uma boa parte delas de cor.
Do outro lado do palco, Benjamim. Mais recente no percurso, mais indie, mas não menos sólido na construção de canções. Um dos melhores cantautores da sua geração que, apesar de não ter “hits” como o parceiro daquela noite, já teve a sua música numa novela, selo curioso de reconhecimento popular.
Apesar de, em conversa, se perceber que a relação entre os dois é recente, a cumplicidade em palco não denunciou qualquer distância. Em “Vias de Extinção”, protagonizaram um dos momentos mais bonitos da noite. Sem ensaios, apenas com a genialidade de ambos e, em particular, do músico sénior, Tozé Brito acompanhou a canção. O que não valem décadas de experiência.
As conversas atravessaram vários territórios, das primeiras canções que trouxeram sucesso a cada um, leia-se os primeiros cheques, à infância de Luís Nunes, inevitavelmente pautada pelas canções de Tozé, passando pelos processos de escrita, temporadas em Alvito ou os dias passados num Porto chuvoso de há algumas décadas.
Cada um trouxe também uma canção marcante. Tozé Brito escolheu “The Long and Winding Road”, dos Beatles. Benjamim optou por “True Love Will Find You in the End”, de Daniel Johnston. Duas escolhas que ajudam a perceber o universo de cada um.
Curiosamente, apesar de o repertório ser amplamente conhecido, ouviram-se “20 Anos”, “Bem Bom”, “Sangue”, “Terra Firme” e ainda uma breve introdução a “É Demais”, que serviu para Benjamim fazer uma pergunta importante, a plateia manteve-se contida durante boa parte da noite. Talvez estivessem a guardar os momentos para o futuro. As vozes soltaram-se sobretudo no final.
O concerto, com mais de duas horas, fechou com “Amanhã de Manhã”. Não houve encore. Em vez disso, a dupla abandonou o palco e atravessou os corredores da sala enquanto o público, de pé, os acompanhava num coro espontâneo.
Fotografias de Joana Linda


















