Um dia chuvoso e frio em Lisboa encontrou o seu antídoto no interior do Sagres Campo Pequeno. O que se viveu não foi apenas um concerto, mas uma autêntica “maratona de rock” que transformou a arena numa lareira.
Enquanto lá fora o frio ditava o ritmo, no interior a “What Lies Within Tour” entregava uma tempestade de decibéis, onde o virtuosismo técnico se fundiu com uma entrega profunda. A noite desenhou-se como uma progressão linear. Os Sevendust abriram as hostilidades com uma sonoridade própria do Nu-Metal, servindo de fundação bruta e metálica. Seguiram-se os Daughtry, que actuaram como uma ponte melódica de polimento impecável, preparando o espírito para o prato principal. Quando os Alter Bridge subiram ao palco, a atmosfera modificou-se: a arquitetura sonora da banda, sustentada pelos riffs de aço de Mark Tremonti e pela voz de Myles Kennedy, provou que o Rock, quando executado com esta mestria, é a única força capaz de incendiar uma noite gelada.
A abertura, entregue aos Sevendust, foi um regresso às raízes do metal alternativo, nu-metal da banda de Atlanta. Trouxeram consigo um background de décadas, onde o groove pesado serviu de base para a prestação vocal de Lajon Witherspoon carregada de alma. Foi o momento da energia crua, onde a bateria parecia ditar o pulsar da Praça de Touros.

Com os Daughtry, o cenário mudou para um Hard Rock mais esculpido e polido. Chris Daughtry, detentor de um timbre que carrega a herança das grandes arenas americanas, ofereceu uma performance muito positiva. A banda funcionou como o equilíbrio perfeito entre o peso inicial e a complexidade que estava para vir, elevando o espírito do público com hinos melódicos que prepararam o terreno emocional para os cabeças de cartaz.
Quando os Alter Bridge tomaram conta do palco, ficou claro por que são considerados os arquitetos do Rock moderno. A dinâmica entre Mark Tremonti e Myles Kennedy é quase sobrenatural: enquanto Tremonti solta riffs estrondosos, mostrando todo o seu valor como guitarrista, Myles contrapõe com vocalizações agéis e espantosas.
Houve momentos de “virtuosismo absoluto”, mas foi na vulnerabilidade que a noite atingiu o seu pico. A passagem pelos momentos acústicos — uma marca registada da banda — transformou o Campo Pequeno num oceano de luzes, onde a música se desligou da eletricidade para se vestir de pura emoção. Foi nesta alternância entre a agressividade técnica e a carícia melódica que os Alter Bridge provaram a sua soberania, celebrando um legado que une a herança do Rock clássico à potência do Metal contemporâneo.
A tempestade perfeita passou pelo Campo Pequeno, mas o rasto de eletricidade que deixou promete perdurar na memória de quem, nesta terça-feira, escolheu trocar o silêncio da chuva pelo rugido de três das melhores bandas da atualidade.
Texto e Fotografias de Valter Dinis





















