Os Air podem nunca ter sido uma menina de 13 anos, mas conseguiram escrever a banda sonora perfeita para esse momento de sofrimento arquetípico.
Em 1999, Sofia Coppola convidou os Air para escreverem a banda sonora do seu primeiro filme, “The Virgin Suicides”, que adaptaria o romance de 1995 de Jeffrey Eugenides e que acabaria por lançar a sua carreira enquanto realizadora. Lançado no ano seguinte, The Virgin Suicides (Original Motion Picture Score), é, como todas as boas bandas sonoras, um álbum que se ouve bem com e sem o filme para o qual foi escrito.
À semelhança do que já tinham feito em Moon Safari, primeiro disco dos Air que Sofia Coppola terá ouvido muito enquanto escrevia o guião do seu filme, todo o álbum tem o seu quê de espacial e de fora deste mundo, mas é um espaço opressivo, escuro e até sinistro. Sem fazer “spoilers” para quem ainda não tenha visto o filme (vão ver!), ouvir a banda sonora dos Air faz-nos entrar imediatamente na sufocante casa da família Lisbon, acrescentando volume aos estranhos eventos que ali se passaram, numa deliciosa brincadeira de claro-escuro que cria a atmosfera perfeita para aquele que é um dos melhores filmes de “coming of age” que, na verdade, nunca chega a ser.
“Playground Love” é a primeira faixa do disco e dá o mote para o que se avizinha: “I’m a high school lover, (…) You’re my playground love”. Miúdos de liceu e os seus amores platónicos pelas colegas da escola, as cinco irmãs Lisbon. Amor, atração pelo fruto proibido, male gaze? Um saxofone de veludo embala-nos, enquanto contemplamos o precipício. Com a participação de Thomas Mars (Phoenix), que haveria de se tornar marido de Sofia Coppola, “Playground Love” é a única faixa não instrumental do álbum e é também aquela que mais facilmente pode ser retirada do contexto do disco e continuar a ser uma grande canção. Avançando a partir daqui o mergulho é total.
Sintetizadores desconcertantes e repetitivos, como os que ouvimos em “Clouds Up” ou “Dirty Trip”, baterias descontroladas (“Dead Bodies”) e guitarras épicas (“Ghost Song”) são os elementos que os Air usam para compor a música que acompanha a obra de Sofia Coppola. Seguindo a história, o disco passa por momentos mais contemplativos como em “Bathroom Girl” ou “Afternoon Sister” e por trechos de pura tensão como o culminar nervoso que é “Dead Bodies”. Em dois momentos, os Air usam também samples distorcidas de cenas do filme. “The Word Hurricane” e a faixa final “Suicide Underground”, contribuem para a coesão intertextual enquanto também acrescentam à aura de opressão: a voz alterada do narrador em “Suicide Underground” resume a matéria dada fazendo parecer que acabámos de viver um bizarro e envolvente documentário de true crime em que os envolvidos não querem ser reconhecidos. Depois do trauma, os personagens tentam perceber de que forma é que o que passaram os afetou e nós, de certa forma, também.
É um diálogo perfeito, aquele que os Air estabeleceram com Sofia Coppola, pondo a nu a musicalidade do cinema e/ou a cinematografia da (boa) música. A banda sonora de The Virgin Suicides sabe usar o seu material base sem a ele ficar preso, conseguindo até transcendê-lo. A verdade é que esta banda sonora contribuiu para cimentar a brilhante carreira dos Air, que, em 2000, quando saiu o álbum, ainda tinham muitos e ótimos discos para criar.