No seu sexto e último disco (até à data…), os Air acompanham-nos até à Lua, numa viagem iniciada há mais de cem anos.
Comecemos esta estória pelo início, o que neste caso nos levará até 1902. Foi nesse distante ano que Georges Méliès deu à humanidade o primeiro filme de ficção científica de sempre, criando no seu laboratório “Le Voyage dans la Lune”. Inspirado nos livros fantásticos de Jules Verne, o filme retrata um grupo de astrónomos que viaja até à Lua numa cápsula disparada por um canhão, explora a superfície da Lua, escapa a um grupo subterrâneo de selenitas (habitantes lunares) e regressa à Terra com um desses habitantes cativo. Mas isto é um retrato muito superficial do que esta película representa, pois hoje é considerado como uma das melhores amostras da História do Cinema, sendo a imagem da lua com a cápsula no olho um ícone por si só. Se não de outra forma, o videoclip de “Tonight, Tonight”, dos Smashing Pumpkins é uma bela e reconhecida homenagem a este filme. O genial Méliès pegou na invenção dos irmãos Lumiére e levou-a a um novo nível, cravando assim o seu nome de forma indelével na sétima arte.
Supostamente nenhuma cópia colorida à mão de “Le Voyage dans la Lune” tinha resistido aos tempos, até que uma foi descoberta numa coleção anónima de duas centenas de filmes mudos, doada à Filmoteca da Catalunha, em 1993. Foi preciso esperar 17 anos, até ser lançada uma restauração completa da impressão colorida à mão, pela Lobster Films. O restauro foi concluído em 2011 nos laboratórios da Technicolor em Los Angeles e os custos de restauro ascenderam à exorbitante quantia de um milhão de dólares.
A versão restaurada estreou assim a 11 de maio de 2011, dezoito anos após a sua descoberta e 109 anos após o seu lançamento original, no Festival de Cannes. A sonorização, como já perceberam neste ponto, foi entregue aos Air, da qual este disco é uma versão expandida.
Porquê os Air, perguntam vocês, mas é pergunta de resposta fácil – são franceses como o criador do filme, e têm uma relação assumida com a Lua e exploração espacial. Nos idos de 1902, o filme mudo era mostrado com música de piano ao vivo, escolhida ao acaso por quem estivesse a exibi-lo, sendo que mais tarde o próprio Méliès começou também a fazer partituras para acompanhar os seus filmes. Demorou, mas “Le Voyage dans la Lune” finalmente tem uma sonoridade dedicada, que impele ao nosso imaginário de espaço, astronomia, planetas e luas, buracos negros.
O ponto alto do disco é, sem dúvida, “Seven Stars”, com participação na voz de Victoria Legrand, dos Beach House. O baixo após a contagem decrescente é esplêndido e o crescendo que se segue conquistador. Mas há também uma inquietante “Moon Fever”, uma “Sonic Armada” com um zumbido constante e um cativante início de disco com “Astronomic Club”.
Os Air, chegados a este ponto da sua carreira já nada tinham a provar, mas superaram mais este desafio, concebendo um álbum que encaixa como uma luva no ambiente do filme em causa, mantendo o seu estilo muito próprio de fazer música.
Versão original do filme: