Em Ferry Gold, A Garota Não expande o seu universo poético e musical, transformando cada canção em retrato íntimo e denúncia social. Um disco exigente, belo e profundamente emotivo, que pede atenção, entrega e, sobretudo, um coração aberto.
Tive este disco adjudicado para escrever durante alguns meses, e muitas vezes fui adiando a sua audição atenta, porque sabia que iria mergulhar em águas densas. O universo criado pela poesia (não consigo usar o termo “letras”, soa-me demasiado simplista) de Cátia Mazari Oliveira obriga-nos a uma resiliência mental que nem sempre está comigo. Mas hoje foi o dia de arregaçar as mangas e abrir os ouvidos a Ferry Gold.
“Abram portas e janelas”, assim começa o disco, e nada podia descrever melhor este desfiar de canções: 19 canções, 19 portas, 19 janelas, todas belas, diferentes e escancaradas. Este terceiro álbum reflete a evolução artística d’A Garota Não, sempre ancorada em música de intervenção, poesia pessoal e consciência social. A cada trabalho há uma maturidade musical e lírica mais vincada.
Se em Rua das Marimbas nº7 encontramos uma das melhores canções de amor, ou melhor, de desamor, “No dia do teu casamento”, em Ferry Gold a abordagem ao amor romantizado desaparece. Aqui, todas as canções são de amor, mas um amor dirigido aos excluídos, à família e à infância.
“Este país não é para mães”, “Mataram um rapaz” e “Ferry Gold” (a faixa que dá título ao disco) são autênticos murros no estômago. Haverá mais, claro, mas estas ficaram coladas ao meu consciente e inconsciente. A Cátia já nos habituou não só a ouvir, mas sobretudo a sentir. E, para mim, essa é a principal função da música: fazer-nos sentir. Este disco fá-lo intensamente, ora uma angústia pelo país que nos rodeia, pelas desigualdades políticas e sociais, ora uma emoção mais íntima.
Quando ouvimos a frase “a minha mãe tinha os sapatos guardados para os dias de sair, mas nos dias de sair ela estava tão cansada que não aguentava os sapatos nos pés” (“Os sapatos da minha mãe”), é impossível não pensar nas nossas próprias mães, no papel que mulheres e mães representam na sociedade, no cansaço acumulado entre o trabalho não remunerado e o trabalho fora de casa. Tudo isto através da metáfora dos sapatos pretos que nunca chegaram a ser usados. Isto é poesia.
Também em termos musicais há muito a dizer sobre Ferry Gold. Mantém-se uma sonoridade que foge ao pop convencional, mas agora com arranjos mais cuidados e uma interpretação vocal de Cátia ainda mais intimista e carregada de emoção. A paleta musical é mais ampla do que nos discos anteriores, com influências várias que fazem da composição uma espécie de mosaico sonoro.
Mas é ao vivo que Ferry Gold ganha uma nova vida. As canções, já de si intensas, transformam-se em algo ainda mais visceral quando partilhadas em palco. Há uma emotividade acrescida, uma entrega que só a experiência do concerto pode oferecer. Vale a pena ver este disco ao vivo, porque é nesse encontro entre artista e público que a poesia, a música e a emoção se completam verdadeiramente.