O quarto álbum de Harry Styles, Kiss All the Time. Disco, Occasionally., revela amadurecimento, curiosidade e vontade de testar as águas de novas formas.
As críticas a este disco têm sido duras. Têm todas muita graça, é certo, mas partem de um aparente desinteresse pela posição que este disco vem ocupar na carreira (e na vida) de Harry Styles. Porque todas dizem que o álbum não entrega o disco que promete e que depois de Harry’s House (2022), que surpreendeu até quem olhava o ex-One Direction com desprezo e altivez, esperava-se (exigia-se?) muito melhor. De facto, Harry Styles (2017) e Fine Line (2019) são álbuns pobrezinhos e Harry’s House veio mostrar que Styles ainda está a crescer. Por isso mesmo, questiono se essa vontade de evoluir a cada trabalho e de explorar as possibilidades conforme se vai descobrindo o mundo, em vez de ceder à pressão da indústria, que, certamente, gostaria que Styles não fosse só no seu quarto álbum por esta altura, não será, por si só, de valor.
Depois de dois anos em tournée mundial (Love on Tour) e do lançamento de Harry’s House, Styles precisou de se retirar e de ir experimentar coisas novas. Por isso, deu uma de David Bowie e mudou-se para Berlim; foi dançar para o Berghain, correr a maratona e descobrir a música electrónica. Afinal, Harry Styles é um millennial como os outros. Desse hiato criativo, em que foi à procura do seu propósito, ou do da sua música, para além dos folhos e dos brincos, nasceu Kiss All the Time. Disco, Occasionally., um álbum que revela amadurecimento, curiosidade e vontade de testar as águas de novas formas.
Ainda assim, foi mesmo só um teste. Molhou a ponta do pé em várias inspirações, considerou deixar-se levar até aos joelhos de calças arregaçadas nalgumas faixas, mas ficou sempre à beirinha da água. LCD Soundsystem será a grande inspiração, um rasto de Harry’s House ainda se faz ouvir e a vida nocturna de Berlim pauta o ritmo de todo o disco. Contudo, se a vontade era fazer coisas diferentes, ter novamente como produtor Kid Harpoon, que assinou o álbum anterior, acabou por manter a sonoridade na zona de conforto e é isso que desconforta tanto quem esperava uma grande viragem.
Sumariamente, Kiss All the Time. Disco, Occasionally. é um disco cheio de dores de crescimento. Canções sobre (des)amores, beats de libertação, sintetizadores de apatia e confissões de expectativas e medos. Harry Styles já foi muitas pessoas e só tem 32 anos e, agora, quer ser ele próprio, só que ainda não se permite experimentar por completo. Ainda quer muito agradar, não desafiar, não desiludir. Este álbum é o reflexo perfeito de um artista que não sabe ainda para onde quer ir a seguir, mas que já sabe onde não quer ficar; mas também de uma indústria que limita em nome das receitas e da devoção de plateias inteiras aos berros. Parece que Harry quer agradar a toda a gente e acaba a agradar a todos menos a si próprio.
Paradoxalmente, é este disco com muito artifício e algumas letras confusas o mais honesto que fez até hoje, num reflexo das suas introspecções recentes. Temos aqui questionamentos, desejos, descobertas e mudanças que deixaram de ser negociáveis. Em Kiss All the Time. Disco, Occasionally., Harry Styles é mais vulnerável e, por isso, mais livre.
“Aperture” e “Ready, Steady, Go!” são as estrelas do disco, com a linha de baixo que marca quase todas as faixas e com sintetizadores divertidos. Têm uma energia forte e anunciam o mote de todo o álbum: deixar o passado para trás e procurar novos caminhos; a procura por clareza depois da confusão. Têm coros, um ritmo muito dançável, noites escuras e batidas fortes. Têm a impulsividade de quem acabou de acordar de uma hibernação criativa. Já “Taste Back” apresenta uma letra mais íntima, que contrasta com outras canções absolutamente crípticas (que é como quem diz, mal escritas) e “Season 2 Weight Loss” diz-nos exactamente de onde vem este disco: de inseguranças, de falta de autonomia e de constantes tentativas de cumprimento de expectativas.
“Coming Up Roses” e “Carla’s Song” são as faixas mais bonitas — e também as mais parecidas com o álbum anterior. A primeira tem um arranjo de cordas que acompanha uma boa letra sobre a (in)compatibilidade entre duas pessoas e a coexistência de dúvida e apreço numa relação. A segunda, que conclui um disco que tem tanta lamentação e incerteza, traz-nos pop calminho (o que Styles faz bem) e uma lição sobre como o mundo está cá para nós, se o quisermos descobrir e se nos quisermos deixar maravilhar, continuamente.
A capa — assinada por Bráulio Amado, designer português radicado nos Estados Unidos — prometia tudo e o título era perfeito. Não foi o que esperávamos, mas foi aquilo que Styles precisava de apresentar para o deixarem estar mais um bocado. Por isso, Kiss All the Time. Disco, Occasionally. é um álbum de transição, porque (ainda) não rompe com nada e os passos que dá na novidade são tímidos. Tem pouco disco, e isso chateou as expectativas de muita gente, mas este é um disco que não quer ser nada de especial. Se quisesse, sê-lo-ia, sabemo-lo. E isso também é bom, nos tempos que correm. Se deixarmos de esperar dança da sua audição e passarmos a ver o álbum como um conjunto de canções sobre auto-descoberta, encaramo-lo de forma mais justa.
Houve quem dissesse que Styles tinha medo de mudar a fórmula, mas também podemos olhar para este disco como, simplesmente, uma experiência, um projecto que resulta de uma sensação tão comum, a de nos sentirmos desfasados das pessoas que nos rodeiam, um exercício de fazer coisas mesmo sem a certeza de que vai tudo correr bem. Podemos não gostar do disco porque é morno, ou podemos apreciá-lo por ser honesto. Poderá ser muito interessante o que quer que venha a seguir, porque Styles tem tudo o que é necessário; só precisa de se libertar.