Quarta-feira foi noite de Cinzas – a iniciativa da Casa Capitão para “nutrir o solo do panorama independente musical” – e as portas do Sótão abriram-se para sentirmos as vibrações de Cortada e facaKILL.
“1234 Tortura
1234 Tontura
1234 Loucura
1234 Frescura”
(Cortada, “1234”, 2025)
Será demasiado preguiçoso da minha parte resumir um concerto, ou este para ser mais correto, dos Cortada ao primeiro verso do tema que abre o brutalíssimo de bom (e bom de tão brutalíssimo) álbum de estreia do quarteto alfacinha – Gānbēi (干杯)? Sim, é … mas, vou tentar nem que perca de capote! Esforçar-me mais, não é isso?
O baixo hipnótico de Lourenço Abecasis dá início à festa em jeito de bastonadas de Molière. Fomos todos avisados, assim como já tínhamos sido devidamente alertados para os efeitos da Depressão Leonardo. Estamos todos aqui porque queremos, e não somos poucos. Para nós, o noise, o punk hardcore, guitarras estridentes, ritmos estonteantes e todos os elementos que poderão servir para definir o termo “jarda” não são uma tortura! Deixemos em paz, e no refastelamento do sofá, quem se deixa amedrontar e foquemo-nos nos quatro moços que em cima do palco vão esventrando os seus instrumentos, e já agora, os seus pulmões.
O volume está nos limites – sobretudo se tiverem que se aproximar das colunas para tentarem sacar algumas fotos decentes no meio daquele nevoeiro todo – e ainda assim a léguas da intensidade emanada do palco. Ao princípio, a massa de som parece empurrar o público para as franjas do sótão da Casa Capitão, mas à medida que o concerto avança gravitamos para a frente do palco enquanto cada um, à sua maneira, vai deixando o seu corpo expressar o deleite. Não, não é nem Tontura nem Loucura, se me permitem despachar duas linhas do verso quase à mesma velocidade que Pedro Dusmond e Daniel Fonseca vão debitando, à vez, a lírica contundente das suas composições. É prazer, mesmo! Prazer sónico com a mais alta concentração de sobriedade possível.
Sabem que mais? Vou passar já para o segundo verso e saltar a Frescura! Sim, sei que a gracinha é óbvia, mas eu avisei … estou em modo preguiça, lá dentro a temperatura é escaldante. A fornalha alimentada pela locomotiva do Bernardo Pereira deixou-nos a suar em bica e saímos do sótão, mesmo assim … sem casacos, para refrigerar um pouco, e deixar-mos assentar nas nossas mentes o que tinha acabado de se passar!
João Dória, guitarrista de Putas Bêbadas, abriu a noite com um momento intimista enveredando a camisola do seu projeto solitário – facaKILL – onde expõe, apenas com recurso à voz e à guitarra (ou ao ukulele), os seus demónios e as suas dores de alma (e coração).



























