A performance elevada, extravagante e desafiante de Monch deu lugar a uma versão subjugada, quase em sussurros, onde a ironia e os jogos de palavras das suas músicas ganharam outra dimensão.
Entrar no Bus naquela noite foi perceber de imediato que algo ali não se encaixava no habitual. Não sabíamos bem o que Monchmonch faria num palco tão pequeno, tão perto de nós, tão desprovido da energia punk que normalmente o atravessa por completo. O cartaz anunciava Monchmonch a apresentar o álbum Dos Entulhos Loucos Cavam Sol, e o silêncio que pairava antes do concerto sugeria que estávamos prestes a testemunhar algo fora do comum — talvez até uma versão de Monchmonch que nunca tínhamos visto. O Bus Paragem Cultural, que raramente recebe concertos de bandas completas, parecia o cenário perfeito para essa experiência.
O Bus (como costumamos chamar) é uma associação cultural já carimbada na cena independente, um refúgio para muitos cansados da gentrificação e da gourmetização dos espaços underground lisboetas. Um espaço que recebe muitos DJ sets e concertos mais intimistas, actividades, feiras — como a quase mensal Feira Fulminante — e até aulas desportivas que atraem muitos dos habitantes do bairro dos Anjos e arredores.
Nas vezes em que os vimos antes, aqui e aqui, Monchmonch — alter ego do brasileiro Lucas Monch, que divide o seu tempo entre São Paulo e o Porto — agarrou-nos pela fúria, pela ironia e pelo seu carisma bruto. Em ambas as ocasiões, a banda que o acompanhava, com membros de Baleia Baleia Baleia e Marquise, foi um verdadeiro rolo compressor punk, e o público correspondeu, dançando no mosh pit à altura da performance explosiva do frontman.
Mas no diminuto e aconchegante espaço de concertos do Bus, Lucas Monch, com o seu violão clássico, e Ukaro Yamoto, nos teclados, sentaram-se frente a frente. E assim que a primeira música começou, tornou-se claro o quão distante este concerto seria do que estávamos habituados — e foi uma grata surpresa.
A performance elevada, extravagante e desafiante de Monch deu lugar a uma versão subjugada, quase em sussurros, onde a ironia e os jogos de palavras das suas músicas ganharam outra dimensão. Monch passou o curto concerto inteiro curvado sobre o microfone; a sua voz delicada, muitas vezes em falsete, soou exactamente como esperávamos de alguém a tentar escapar ao inverno que finalmente mostra a cara. O seu dedilhado ganhou força com o acompanhamento de Ukaro nos teclados, que frequentemente tocava em contratempo, com linhas angulares sobre a melodia principal. O acompanhamento vocal — por vezes de pequenos grunhidos — deu ainda mais personalidade às canções.
Ouvimos temas de Dos Entulhos Loucos Cavam Sol, que por agora só existe em vinil e, à data desta publicação, não está disponível online. Ouvimos também algumas canções novas — Palavras Cruzadas destacou-se pelo refrão — e, finalmente, versões de City Bunda e Coisa Linda do seu disco Martemorte, recentemente lançado pela Saliva Diva, além de Vampira do álbum de estreia Guardilha Espanca Tato.
No fim, percebemos que o concerto foi perfeito para aquele começo de noite, e nem deveria ter sido surpresa — estamos a falar de um talento em ascensão que merece ser reconhecido. Só não sabíamos que Monchmonch carregava também esta outra forma de se mostrar: contido, afiado, quase secreto, como se tivesse guardado esta versão para o momento exacto em que alguém estivesse disposto a ouvi-la de perto, capaz de transportar as mesmas canções entre meios tão distintos sem perder força. E foi isso, justamente, que acabou por marcar a noite.
Fotografias: Rui Gato















