Na sua maneira límpida e descomplicada de cantar, Márcia escreve e canta sobre dúvidas, certezas, segredos e sonhos. É um álbum que cura, que ampara, que dá a mão. Que, principalmente, evoca o Amor.
Não parava quieta. Não dormia. Usava fraldas, por baixo das roupas coloridas com que a minha mãe me vestia. O meu vocabulário resumia-se a meia dúzia de palavras, metade delas inventadas. Estávamos em 2010, quando o meu pai fotografava Márcia para o jornal em que trabalhava na altura, quando a minha mãe descobria “A pele que há em mim”, quando eu era apenas um bebé de dois anos. Não me lembro de algum momento da minha vida em que a Márcia não estivesse presente. Sempre foi um membro extra na família. Sempre soube a casa.
Picos e Vales trouxe a beleza que faltava ao mundo. Não é industrial nem tem escrita fácil. É despretensioso, é honesto, é simples. Os vazios, as inseguranças, os medos costumam esgueirar-se para debaixo da minha pele, revolvendo tudo o que houver para revolver, deixando-me sem defesas. Fujo, caio, escondo-me. Márcia traz na voz os copos meio vazios e transforma-os em copos a transbordar. “Uma conversa salva. O amor salva. A música salva.” releio no As estradas são para ir, livro da artista. A sua doçura protege, cura e, sobretudo, salva.
Depois de “O que eu ainda não sei” e “Já passou da hora”, surge o tema mais impactante, “Força de Fera”. Expõe a violência a que tantas mulheres estão expostas. Mulheres que foram silenciadas. Márcia dá-lhes voz. Dá-lhes garra. Dá-lhes força.
Já passei meses sem a ouvir e já a ouvi vinte vezes de seguida, como hoje. “A Flor e a Fava” regressa sempre a mim, como um amigo que raramente vemos, mas cujas conversas e abraços sabem sempre a um amor alimentado todos os dias. Durante muito tempo, acreditei que “A Flor e a Fava” era a que mais me cativava no álbum devido à sua complexidade instrumental, até me debater com a nostalgia que senti dominar o meu corpo. O meu coração e cabeça tentam acompanhar o ritmo, enquanto o meu hipocampo reconstrói memórias de infância. Oiço “Tu disseste já meio passada; já passou da hora / E o que é umas horas acordada?” e estou de novo na minha casa antiga, a querer mais um jogo, mais um episódio, mais uma página. Sou de novo a criança que se recusa a dormir, a criança que quer viver tudo ao mesmo tempo, de uma só vez.
Picos e Vales despede-se com “Lembra”, uma canção de embalar acompanhada de piano e guitarra acústica. Após algumas turbulências, fica em nós apenas a paz rouca de Márcia e o seu permanente desejo de amar e ser amada.
Já me apaixonei por diversos álbuns e já rapidamente essa paixão desvaneceu. Há algum ingrediente mágico em Picos e Vales que o torna imune a enjoos, a perda de beleza, a sossego de ânimos. De todas as vezes que volto a ele, encontro sempre algo novo. Um verso que me representa, um instrumento que me cativa, uma canção que não dava tanto nas vistas e que, um dia, me apanha a limpar lágrimas à manga da camisola. Por mais que o fator da novidade me entusiasme, a nostalgia ultrapassa-o. Durante 39 minutos, ainda sou a criança que se recusa a dormir. Durante 39 minutos, estou em casa.