Num mundo saturado de ruído e ansiedade, os Florist oferecem tempo, espaço e delicadeza. Jellywish não se impõe, mas partilha canções onde cabem a frustração de viver e a beleza de ainda estarmos cá.
Jellywish vem de mansinho. Verso a verso, canção a canção, com a delicadeza de quem não quer acordar ninguém. Uma voz que sabe a algodão doce. Melodias embrulhadas em papel de seda. Há discos assim, que nos abraçam sem levantar a voz – Jellywish é, certamente, um desses.
Os nova-iorquinos Florist são um projeto de amizade, liderado por Emily Sprague, com composições que parecem nascer de um casamento feliz entre o indie charmoso e o folk requintado. A sua voz chega-nos quase sempre num sopro frágil, como quem sussurra ao ouvido, cantando sobre as suas inquietações, inseguranças, impermanências e desconexões. Porém ao quinto disco, o som da banda parece mais luminoso e levemente mais pop.
Em Jellywish, a fragilidade e a frustração não desapareceram: “Every day I wake, wait for the tragedy / Should anything be pleasure when suffering is everywhere?”, pergunta logo na primeira faixa, “Levitate”; “Humanity, what have we done to this? / Absolutely out of control”, remata na última faixa, “Gloom Designs”. Mas são, acima de tudo, a esperança e o amor que povoam as suas canções: “There has got to be light in the darkness of a mind”, sussurra em “Jellyfish”; “Isn’t it amazing that we get to share this life?”, pergunta-nos em “Sparkle Song”. Emily Sprague é uma dessas compositoras, que nos fazem pensar na vida, apontando o dedo com gentileza à forma como nos limitamos uns aos outros.
Num mundo cada vez mais ansioso, os Florist não têm pressa. Não tentam impressionar. A instrumentação de Jellywish assenta maioritariamente em dedilhados delicados, acordes de piano suaves e arranjos minimalistas, acolhendo as questões existenciais das suas canções com a leveza e a beleza que merecem. Há outras texturas que surgem de quando em vez, mas sempre em forma de embalar.
Jellywish não grita, não resolve, não explica, nem consola com certezas. Mas sussurra com firmeza. É um género de fé sem nome. Um álbum que se desenrola em pouco mais de meia hora, até percebermos que por baixo de tanta névoa… também há lume.