Do disco novo dos Besta à lição de História do Heavy Metal dos Thormenthor, uma noite de peso na histórica sala ADAO, no Barreiro
De quando em vez, somos bafejados pela sorte. A vontade de ver ao vivo a banda responsável por um dos meus discos preferidos de 2023 – Terra em Desapego, dos Besta – levou-me até à histórica ADAO no Barreiro, onde, para além de uma grandiosa noite de peso, me esperava uma lição de História do Heavy Metal pelos excelsos Thormenthor.
A julgar pela média de idades do público – arriscaria nuns bons 45 anos, dada a quantidade de barbas brancas – que praticamente encheu a sala da ADAO, a maioria dos presentes sabia bem ao que ia. Para além das suas aparições serem pouco frequentes, os Thormenthor são um nome de peso na história do Heavy Metal nacional, ou para ser mais correto, um nome que diz muito aos fãs da velha guarda, aos trves!
Liderados por Miguel Fonseca (Bizarra Locomotiva, Plástica) na voz e na guitarra, os Thormentor nasceram em Almada no final dos anos 80, mantendo há 30 anos a mesma formação completada por Pedro Quaresma (Da Weasel, Lesma) na guitarra, João Paulo Dias no baixo e voz, e Pedro Campos na bateria. Apesar da importância e da longevidade, a banda almadense conta apenas com um álbum (Abstract Divinity), um EP e um bom punhado de demos no seu catálogo – todos eles marcos históricos, todos eles venerados pelos irredutíveis metaleiros nacionais.
Apoiados num alinhamento composto por temas oriundos das demos de 1988 e 1989, do referido álbum de 1994 e até da emblemática compilação The Birth of a Tragedy (1992), os Thormenthor aproveitaram a noite para uma lição de história. Miguel Fonseca apresentou praticamente todos os temas, discorreu sobre o processo de crescimento da banda, contou a origem do nome Thormenthor, e falou das suas influências – deixas perfeitas para a introdução da versão de “Tormentor” dos Kreator.
Ao longo da sua atuação, os Thormenthor brindaram-nos com o seu Death Metal Progressivo, temperado com os melhores condimentos provenientes de outros alicerces metalúrgicos como o Black ou o Thrash Metal, num exercício que tem o seu quê de nostálgico mas que celebra, acima de tudo, o prazer de tocar a música de que se gosta com as pessoas de quem se gosta.
Antes da banda de Almada, entraram em cena os principais culpados da minha ida ao Barreiro – os Besta! Para além de os nunca ter visto em concerto, já não me lembro qual foi a última vez que gostei tanto de um disco novo de Metal como está a acontecer com Terra em Desapego, lançado pela banda em agosto deste ano. Avanço, desde já, que se fosse por este último motivo, estaria tramado porque, do último registo, os Besta apenas tocaram a primeira faixa – “Olhar Seráfico”.
Tramado não fiquei, no entanto, porque o concerto dos Besta fez valer bem a pena os quase 80 Km feitos para os ver. Um valente porradão sónico em 22 shots servidos pela dupla de guitarristas Ricardo Correia (Rick Chain) e Ricardo Matias, sustentados pela máquina de ritmos Paulo Lafaia (Lafayette) na bateria e exponenciados por esse animal de palco chamado Paulo Rui nas vozes.
O alinhamento passou um pouco por todo o percurso da banda – que já leva 11 anos, quatro álbuns e um bom número de edições mais curtas -, privilegiando, ainda assim, o longa duração Eterno Rancor (2019) mas, sobretudo, passou-nos por cima, com o seu Grindcore Crust demolidor e com uma prestação demoníaca de Paulo Rui!
Muito sinceramente, ainda não integrei completamente o que se passou. Só sei que gostei e que quero repetir.
A responsabilidade de aquecer o público coube aos Black Hill Cove, que, apesar de ser relativamente recente, conta com músicos com muita experiência – Rui FAC na voz, Nuno Aguiar de Loureiro na guitarra, Pedro Carvalho no baixo e Xinês na bateria.
Pela movimentação registada na sala, o mínimo que se pode dizer é que, apoiada num Metal Hardcore moderno, de som cheio e breakdowns cativantes, a banda lisboeta cumpriu a referida incumbência com empenho e competência.
Uma última palavra para o DJ set do mestre fotógrafo Eyes Of Madness (Pedro Roque), que aproveitou os intervalos entre as bandas para cuidar dos nossos ouvidos, com escolhas menos óbvias e muito interessantes.
Fotos e texto por Rui Gato














