Conhecer Zaho de Sagazan obriga qualquer um a se sentar consigo próprio, através do movimento e da palavra, e com a sua beleza da intenção da vida e do seu propósito, da curiosidade de se relacionar através de empatia, de abraçar e se emocionar com outros.
Vimos por este meio relatar um fenómeno ocorrido por dias de Agosto de 2025, a que chamaremos de Contágio Comunitário da Poesia Electro à la Française em Coura.
“Zaho de Sagazan”… “Zaho quê? Repete lá outra vez? Mas isso é uma banda de quê?” O nome que ninguém percebia porque me motivava fazer 423km para Coura mais do que qualquer outro artista deste cartaz incrível e rico de 2025. Desde que saiu o seu nome no cartaz não pensava noutra coisa, sentir ao vivo a energia deste disco, de 2023. No fim do concerto não foram precisas mais explicações e adjectivos a ninguém (finalmente!). O reconhecimento surgiu com um público aos saltos, a dançar contagiado e no fim, de queixo caído com uma energia e emoção que transbordou e ecoou nos restos dos dias.
Uma rapariga de 25 anos, francesa, que estudou dança e gestão como eu, no país da chanson française e que personifica qualquer sonho de mulher (artista) em ser autêntica, eclética, vibrante e literalmente assumir todas as emoções de um ser humano sem pudor.
A língua francesa é tratada com o maior dos carinhos por Zaho: a riqueza das suas palavras deixa Brel, Piaf, Ferrat, Aznavour felizes e aos saltos “au dessous des nuages” como canta na sua galardoada “La symphonie des éclairs”.
La symphonie des éclairs (disco) é cheio de recantos e como que labiríntico, mas é ao vivo que ganha realmente uma intensidade estrondosa. O palco, com os seus três músicos juntos em clareira e uma cenografia minimalista e impactante são os pilares para o corpo livre numa túnica esvoaçante angelical que contrasta com um macacão de calções desportivo, um loiro rabo-de-cavalo baixo, voz cheia, dicção segura, e cada dedo mostra uma intenção quando se dirige ao público, quando fecha os olhos, quando sente cada palavra que pronuncia. Não há poupança de emoção, não há.
O ritmo electro house de “Aspiration” cativa o público no recinto, curioso com a constante rima entre “cigarrete” e “tourner la tête” e a forma orgânica como Zaho se movimenta e dança. “Je t’aime” de “Langage” é aquela frase internacionalmente reconhecida que coloca qualquer ouvinte a pensar em quem mais ama naquele segundo.
O telefone toca em palco, não deixa de ser curioso que na geração do telemóvel é um telefone de orelhas que é o protagonista cénico, e Zaho pergunta “Qui est là? Qui va là?”: é “Tristesse”. A voz interpreta a raiva, frustração do que a tristeza significa e cresce enquanto o corpo expele e revolta-se nessa intenção agarrando-se à paisagem e batida electrónica que amplia pelas árvores e pelo Rio Coura.
“Ô Travers” indica uma preparação para algo que requer que o público prepare uma compreensão emocional através simplesmente de se alinhar com a simplicidade da essência de ser humano.
Zaho respira. Existe um silêncio.
Um discurso em inglês que prepara explicitamente quem a escuta que o momento a seguir é para chorar. Deambula pelo palco a contar a sua história pessoal em como descobriu que chorar era bom e que todos nós devíamos abraçar esta necessidade básica. Partilha que descobriu que a sua extrema sensibilidade, de que era acusada quando mais criança, tinha maior proveito enquanto tocava ao piano acompanhada por cânticos e com as suas próprias letras fazendo-a sentir mais viva e que, por isso, qualquer pessoa que seja extremamente sensível, se deveria sentir abençoada. E como me senti abençoada.
As lágrimas de emoção que me correram ao começar a ouvir as primeiras notas ao piano de “La symphonie des éclairs” só pararam quando se ouviram os aplausos depois de longos 10 minutos (que na versão em disco são só três…) dedicados a esta música, que é uma arte às metáforas de vida e poesia das mais bonitas dos últimos anos.
Zaho disse que era para chorar e os meus olhos obedeceram e transbordaram. Desceu à grade, como faz em todos os concertos e aí, mesmo estando na terceira fila ela cruza os olhos dela com os meus, sorri enquanto canta e fica comigo de mão dada enquanto canto, choro, gravo e admiro os olhos verdes que umas horas atrás cruzaram com os meus na zona de restauração ao jantar e que pude trocar empatia e energia em francês. A minha vida parou um minuto e treze segundos pela energia que ressoou em todos os meus músculos, memórias, coração, enquanto ela me apertava a mão, cantava para mim e partilhava o microfone comigo. Chorar à frente de alguém (e centenas de pessoas!) que canta que as pessoas dançarão ao ritmo do seu choro e que ela aquecerá o coração de todos à sua volta com o seu canto aconteceu em mim. Aconteceu em mim uma sinfonia.
Existiram mais pessoas a cantar refrões e até traduzidos em português, e a partir daqui o público fixou-se e rendeu-se. Seguiu-se uma evolução de crescimento com a canção com o seu mentor Tom Odell e intensificação de ritmo de “Hab Sex” e “Dansez” foi uma demonstração de libertação de corpos em comunidade seguindo o mesmo batido cardíaco. Mais de quinze minutos de música e de dança, de saltos, de corridas em palco, de mãos no ar, de palmas, de roupa que sai e cabelos que ficam soltos, e gritos de emancipação e cânticos de amor.
Por isso é que o seu concerto acaba com o seu cover de “Modern Love” de David Bowie: um momento solar na carreira de Sagazan de homenagem a Greta Gerwig, quando presidente de júri do festival de cinema de Cannes, pela sua cena no filme “Frances Ha”: toda a descontração corporal, a interação pelo público, descalça com meias brancas no palco passam em todas as redes sociais e noticias. O mundo conhece Zaho.
Quase todo.
Conhecer Zaho de Sagazan obriga qualquer um a se sentar consigo próprio, através do movimento e da palavra, e com a sua beleza da intenção da vida e do seu propósito, da curiosidade de se relacionar através de empatia, de abraçar e se emocionar com outros. É um motor para a intensidade de uma vida cheia de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente, felicidade e amor.
Zaho abraçou os seus músicos, emanavam uma alegria comum que era lindo de se contemplar. Afirmou que, depois de 400 concertos em todo o Mundo, aquele teria sido em dúvida um dos melhores três concertos da sua carreira. Portugal e Coura fizeram o seu trabalho: comovemos a miúda francesa que nos fez chorar e saltar em uma hora.
Penso hoje que Zaho poderá ter incarnado momentaneamente o nosso Fernando Pessoa quando afirmou que “Ser sensível é sentir-se viva. E nunca existirá tal conceito de se sentir viva demais.”, seguindo assim uma das mais bonitas declarações do nosso poeta (partilhado pela minha mãe no dia seguinte deste momento):
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontece. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”
Texto de Inês Baptista da Câmara