O segundo dia do Festival Vodafone Paredes de Coura foi um dia de portugueses fortíssimos, e nem todos a falar português, e de Lola Young, ídolo de alguns teens que rumaram à praia fluvial mais famosa do país, fazendo a média de idades no recinto descer ainda mais.
A abertura do palco principal esteve a cargo dos portugueses Linda Martini. A banda, que há quase 20 anos se estreou em Coura, esteve irrepreensível, como é seu hábito. André Henriques dizia que um amigo lhe contou que pessoas inteligentes estão nas sombras, mas muita gente estava ao sol, e não os podemos chamar ignorantes. Headbanging, crowdsurfing e mosh de calções de banho e biquíni têm mais encanto, e esse encanto está em Paredes de Coura. A apoteose ficou para o fim: Cem Metros Sereia, uma das canções mais emblemáticas da banda, foi cantada até à exaustão, aquelas palavras repetidas em tom visceral a servirem de despedida.

Ainda com os Linda Martini a ressoar do palco principal, começaram os Glockenwise e, logo nos primeiros acordes, sentiu-se o calor do público e não só: o sol, entre as copas das árvores, fustigava os espectadores que procuravam sombra (também havia muito pó, mas prometo que me calo com o meu problema com o pó). Foram três quartos de hora cantados em português, com guitarras a abrir, deixando o público com vontade de mais quartos de hora de Glockenwise. Nuno Rodrigues, aderindo à moda de Paredes de Coura 2025, mas com sentido, envergava uma camisola desportiva da Palestina e acabou nos braços da plateia quando a banda tocou Calor, a última da tarde. A banda de Barcelos, que esteve 12 anos sem tocar em Coura, mostrou a vontade de um dia tocar à noite.

Terno Rei, a banda brasileira que subiu ao palco principal no início do entardecer, trouxe a sua indie melancólica ao anfiteatro. Foi bem recebida pelos vários fãs e até mesmo por aqueles que não os conheciam bem e foram contagiados. Pessoalmente, não me convenceram: ainda que o concerto tenha tido um crescendo, faltou energia, talvez por ter acabado de assistir a um concerto vibrante como o dos Glockenwise. Provavelmente, numa sala pequena em nome próprio, a cena mude de figura.
Infelizmente, não consegui assistir ao espetáculo dos LA LOM, porque a girl’s gotta eat (e eu prometi à minha mãe que me ia alimentar bem), mas o som que chegava à área da restauração dava para perceber que quem assistiu ao trio norte-americano teve bons momentos. Até na fila para os pregos se dançava.
Perfume Genius chegou, competente e no lugar certo, ainda que, a julgar pela passividade do público, não tenha havido grande dose de genialidade. Mike Hadreas, que até tem uma presença marcante, com vários movimentos sensuais-acrobáticos e uma atmosfera quase teatral, não convenceu, mesmo quando começou a serpentear com uma cadeira. As canções mais marcantes estiveram lá, e Queen arrancou uns quantos aplausos, mas elejo-o como o concerto “meh” do dia.
Lola Young, a rainha da noite. À segunda canção já dizia que amava o público português, mas nós estávamos rendidos desde o primeiro momento. Era visível a emoção da inglesa, que confessou que nem gosta assim tanto de concertos às 23h, mas a energia do público contagiou-a e deu-nos um dos melhores espetáculos dos dois dias. Uma pop alternativa, com um toque de R&B e soul, bem construída, bem interpretada e, sobretudo, bem cantada. Fez-me lembrar uma mistura de Lily Allen e Amy Winehouse. Lá para meio do concerto, entre lágrimas e “obrigadas”, Lola afirmou que esta tinha sido a melhor plateia de sempre e que quer voltar a atuar e a viver em Portugal (lá vai a especulação imobiliária disparar mais um bocadinho). Dois dias de festival e já temos a segunda artista rendida à plateia de Coura. Ainda ontem, Zaho de Sagazan dizia que o concerto no festival tinha sido um dos três melhores dos 400 que já deu. Com o novo disco I’m Only Fking Myself prestes a sair, foi com a música que a catapultou para a ribalta graças ao TikTok que a apoteose chegou: Messy, uma canção que aborda temas sensíveis e, por isso, se conecta com as experiências de jovens adultos como os presentes na plateia. Mais uma vez, a artista saiu em lágrimas. Acredito que este foi um concerto que Lola não vai esquecer, tal como quem o presenciou.
Para fechar o palco Vodafone, Porto, The Man… perdão, Portugal. The Man. John Gourley envergava o equipamento do FCP, o que aposto que incomodou muitos benfiquistas e sportinguistas presentes, mas, ao primeiro acorde, todos ficaram rendidos, independentemente da cor clubística. O som envolvente chamou o público que se tinha movido para o palco secundário para ver os Soft Play e voltou a recentrar-se para ver a banda norte-americana mais portuguesa, e por isso o anfiteatro voltou a compor-se. Ao vivo, Portugal. The Man entregam um concerto intenso, dinâmico e envolvente.
A empatia com o público é quase imediata, não só pela energia em palco, ou pelo sentido de humor, ou até pelo nome da banda. Acredito que, para quem os viu ao vivo pela primeira vez, como eu, a banda ganhou uma nova legião de fãs. Fiz logo juras de amor ao grupo e prometo vê-los novamente assim que voltarem a Portugal. No carro, no caminho para casa, a música que tocou foi Portugal. The Man. Agora sim, percebo o entusiasmo de alguns dos meus amigos.
Assim terminou o segundo dia, com a música a ecoar pela noite e a ansiedade a crescer para o que ainda falta viver.
Fotografias: Jorge Resende











































