O quinto longa duração do trio nortenho nasce na ressaca da celebração dos seus primeiros dez anos de existência (celebrados em 2024) e, principalmente, dos milhares de quilómetros percorridos na sua Kangoo para as muitas centenas de concertos que entretanto foram dando por este mundo fora.
“O álbum tem oito faixas de pura terapia de dissociação, carregadas de distorção e desprovida autocuidado. As guitarras uivam, a bateria martela, e as nossas vozes soam como se tivéssemos gargarejado vidro partido e arrependimento. Algures no meio do caos, pequenos ganchos pop conseguem infiltrar-se, acenando-te antes de se afogarem outra vez. É como tentar assobiar uma canção de amor no meio de um furacão.”
(Everything Electric, Novembro de 2025 – tradução livre)
Isto de seguir bandas, tentar fotografar concertos e escrever as respectivas reportagens não é fácil! Para elas, bandas, a vida é certamente muito mais complicada, mas permitam-me prosseguir o raciocínio. Escrever sobre discos, ainda por cima de que gostamos muito, e ainda mais por cima quando são das minhas bandas preferidas, mais difícil é! Sou invadido pelo medo de deixar coisas de fora, de não ter percebido a mensagem, de me perder em elucubrações demasiado pessoais que fazem tudo menos o que o pretendido, que é espicaçar-vos a ouvir o disco (e já agora, picá-los para os irem escutar ao vivo)! A tentação de vos deixar com a descrição do disco redigida pela própria banda e escarrapachada na sua newsletter mensal (sempre cheia de pequenas pérolas, diga-se de passagem), é enorme, mas mesmo assim menor que a pretensão deste vosso aprendiz de escriba musical em encher-vos com mais incentivos para se deixarem enamorar por You Have Fallen… Congratulations!
O quinto longa duração do trio nortenho nasce na ressaca da celebração dos seus primeiros dez anos de existência (celebrados em 2024) e, principalmente, dos milhares de quilómetros percorridos na sua Kangoo para as muitas centenas de concertos que entretanto foram dando por esta Europa fora, pela África do Sul e por outros sortudos cantos deste mundo. Tanto em estúdio como em cima do palco, o som da banda tresanda a maturidade, a energia desbragada e ao crescente aprumar da sua arte de tocar e compor canções.
Oito temas em pouco mais de vinte e sete minutos? Sosseguem! Os Sunflowers não viraram minimalistas, nem muito menos numa daquelas bandas que despacha rodelas para alimentar mais um ciclo de digressões. Bem pelo contrário, os oito temas de You Have Fallen… Congratulations! integram a irreverência punk que lhes preenche o tutano com o experimentalismo e a dispersão sónica mais fácil de identificar nos dois álbuns anteriores – A Strange Feeling of Existential Angst (de 2023) e Endless Voyage (de 2020). No registo recém lançado, Carlos, Carolina e Fred semeiam e nutrem os ingredientes a que nos têm vindo a habituar, colhem-nos na altura certa, preparam a marinada e prosseguem diretamente para a redução. A vida na estrada pode ser dura, mas à mesa destes três não encontrarão nem travessas tipo enfarta brutos nem triângulos de pão super processado … apenas délicatesse sónica!
Antes de entrarmos nos ditos oito temas, façamos o unboxing do LP. A indústria musical tem destas coisas e o amor tátil da atualidade regressou ao vinil. A minha carteira não me permite cair muitas vezes nestas tentações nostálgicas, mas desta vez teve mesmo que ser. Antes de chegar ao magnífico círculo marfim (há uma versão dourada também) passamos pelo envelope interno com o qual poderemos passar horas, exatamente como na adolescência, na tentativa de descobrir o sentido da vida nas letras destes nossos girassóis.
Colocada a agulha no microgroove certo, “… Chameleon Kid” recebe-nos de braços abertos. O pulsar do baixo de Fred pontapeia-nos gentilmente o rabo e damos por nós no meio da pista e nesse momento, o slam das baquetas dá-nos o choque necessário para arrancar com a dança. «All our worries lost in context» e venham esses delírios distorcidos da guitarra de Carlos enquanto nos deixamos hipnotizar pelas vozes que tanto puxam do megafone, como nos segredam ao ouvido! E o tom daquele riff logo a seguir ao solo de guitarra?… Fafafffffantástico! “I Got Friends” apanha-nos no sítio exacto para levantarmos voo a bordo da Air Kangoo … a companhia indicada para atravessarmos as nuvens de asteróides alucinogénios mais deliciosas do universo e as únicas capazes de nos fazer alhear deste mundo cão. Em “Corpse Light” aterramos suavemente nas brilhantes lajes em xadrez desta enorme sala lynchiana, cenário perfeito para sacarmos a nossa melhor imitação de John Travolta, até que uma luz imensa nos invade ao ponto da tontura. “A Therapist’s Special” parece prometer-nos a sobriedade, mas não há forma de sair daqui! Sigamos as vozes. São muitas. São belas. São hipnóticas. Para juntar à festa entram efeitos, teclados marados e outros objetos sonoros não identificados. Abanamos os ombros e a cabeça até mais não e antes de cairmos redondos no chão, Carolina e Fred resgatam-nos pelas ancas num ritmo voodoo! Terei ouvido maracas ou seriam caixas de comprimidos?
O Sargento Carlos entra em cena logo no início de “March of the Drones”. «Time’s up, let’s begin” e em poucos milissegundos encerramos as fileiras deste exército psicadélico, prontinhos para entrar no caleidoscópio rítmico e melódico de uma das malhas mais enfeitiçantes do disco. Segue-se “workworkwork”. Dois minutos e pouco de panque espacial a pedir para ser ouvido pelo menos três vezes de seguida! Com o cérebro em plena ebulição chegamos aos dois temas que dão título ao disco. A breve chuva de feedback, distorção e reverb de “You Have Fallen…” vem acordar-nos, só que desta vez é mesmo a sério, para “Congratulations”. Na ausência de palavras, a desolação sai das vozes e rouba os instrumentos a Carolina, Carlos e Fred, cujos corpos vagueiam agora lentamente pelas muitas mãos de ouvintes siderados, como eu e, se tudo estiver “bem” convosco, … todos vós!