O ano musical de 2024 arrancou logo ao quinto dia, com o lançamento de Letter to Self, estreia dos SPRINTS. Pela amostra, será um ano de boa colheita.
O primeiro sentimento que tive, ao carregar no play, foi “olha, os Priests lançaram um disco novo”. As semelhanças eram/são por demais evidentes, sendo a mais óbvia “a catarse de encontrar ali (aqui) uma frescura punk, pós-punk, indie, um movimento incontrolável de corpo a querer meter-se na fila da frente de um concerto rodeado de gente com o mesmo sentimento” (e daqui mando um cumprimento a quem se meteu num avião para ir até Amesterdão fazê-lo).
Começando pelo início, os SPRINTS são mais uma banda da boa fornada que temos tido das ilhas britânicas, neste caso da Irlanda. Dublin foi onde se conheceram os membros Karla Chubb (vocalista), Colm O’Reilly (guitarrista), Jack Callan (baterista), amigos de infância, e que recrutaram Sam McCann para o baixo. O ano de 2019 marcou o arranque das “operações”, e depois de dois EP’s (Manifesto (2021) e A Modern Job (2022)), temos agora a estreia nos longa duração. E que estreia, que energia, que ferocidade. Karla Chubb refere como inspirações Patti Smith, Siouxsie and the Banshees e PJ Harvey, e nós acrescentamos o exemplo recente mais próximo – Jehnny Beth e as suas Savages. Da crueza do punk, à intensidade do grunge, tudo se mistura neste caldeirão de poção mágica, não para bater em romanos, mas para atirarmos os nossos corpos contra outros suados, êxtase provocado pela música ali mesmo em cima do palco, um religioso mosh à nossa volta.
O arranque é tímido – bateria em registo batida de coração. Aparece uma guitarra tensa, a preceder o aparecimento de Chubb e as suas indagações sobre o que poderia fazer melhor na sua vida. Ao fim de um minuto começa a perguntar-se se está viva. Ao fim de dois, a catarse “And I don’t know if I go harder, is that better at all?”. Relembro, ainda só estamos em “Ticking”, primeira música do álbum, e já tivémos um pouco de tudo o que são os SPRINTS. “Heavy” faz jus ao nome, malha rock grandiosa, uma das melhores de Letter to Self. A vocalista assumiu, em entrevista, que as letras são muito focadas no seu auto-conhecimento pessoal, os seus traumas e ansiedades, e em como transformá-los em música foi importante para os arrumar e deixar para trás. Daí advirá a visceralidade colocada em palco (jura quem viu), agora transposta para álbum.
À quarta canção temos uma ligeira calmia, “Shaking their Hands” é em modo crescendo, jogo tensão/libertação. “Adore Adore Adore” ataca sem freios a misoginia ainda presente na nossa sociedade. O exorcismo a ser feito através da música é das forças mais letais para a paz interior. E Letter to Self é um portento de disco nesse sentido, apesar de barulhento e ruidoso, liberta-nos das dores do dia-a-dia, e saímos dele com um sorriso optimista na cara.
Por fim, destacar a minha música preferida do disco, “Literary Mind”, vibrante e intensa, com refrão para cantar a plenos pulmões. Houvesse justiça neste mundo e estaria a ser ouvida em todo lado em repeat.
Comecei este texto com uma referência a uma banda que lançou um disco incrível mas depois desapareceu na espuma dos dias. Acredito que os SPRINTS não seguirão tal caminho e que têm ainda mais para nos dar. Para já importa tratar de ir a Coura vê-los ao vivo e sentir a energia a inebriar-nos.