Durante os cinco temas de Reia Cibele vou sentindo travos de bandas que há algum tempo me fazem eriçar os pelos dos braços e/ou cantar sem vergonha pela casa fora.
Aposto que se fizesse uma sondagem pela redação do Altamont ou pelo conjunto dos nossos leitores, (bem) mais de metade não passaria dos primeiros 10 segundos deste disco. O problema não está na banda, mas no tipo de som que pratica. Aliás, muito provavelmente, o problema não estará aí, mas nesses ouvidos mais sensíveis mesmo! Mas isso, serei só eu armado em bruto … ou em outras coisas, não interessa!
Sem brincadeiras, bem sei que a sonoridade do Hardcore e respectiva vizinhança estética alargada não será de fácil digestão para toda a gente! Aceitemos todos isso e a vida tornar-se-á um pouco menos complicada. Para quem, como eu, não só a tolera como a aprecia, a vida fica bem mais facilitada e, acima de tudo, mais doce. Principalmente quando, como é o caso deste jovem quarteto, o peso e o músculo são intercalados com mudanças de ritmo e de registo e recheados de pequenos pormenores deliciosos que vamos descobrindo ao longo de repetidas audições.
Cheguei aos Reia Cibele há cerca de ano e meio no saudoso Musicbox, num concerto em que me conquistaram ao primeiro tema e que acabou por me trazer a esta primeira gravação da banda, editada em maio de 2024. Desde aí, o disco tem-me acompanhado nesta minha tentativa de ir ganhando calo e coragem para escrever sobre ele. Como calo ainda me falta, estou a tentar compensar a coisa com coragem e muita lata. A ver se me safo!
Confesso que tenho sempre medo de falar de influências. Desconfio que não ouvimos as mesmas coisas – sobretudo quando estes jovens são pouco mais velhos que o meu filho – e mesmo aquilo que teremos em comum terá sido sentido e vivido de forma diferente por mim e mesmo entre os quatro. Prefiro, por isso, falar das (boas) memórias que ao longo do disco vão sendo acordadas. Durante os cinco temas de Reia Cibele vou sentindo travos de bandas que há algum tempo me fazem eriçar os pelos dos braços e/ou cantar sem vergonha pela casa fora. Este disco dá-me vontade de voltar aos Dillinger Escape Plan, aos Converge e aos Gojira, entre outros … mas só depois de o (o disco) ouvir … duas vezes!
Depois das cordas e dos pratos aquecidos, “Solaris” arranca num estonteante sprint de 100 metros guiados por um riff viciado da guitarra de Martim. Acabam todos ao mesmo tempo – Acreditem, eu vi no photo-finish. Enquanto Bruno descansa a voz, a guitarra e a bateria vão soltando uns kiais para retemperar o corpo e só o baixo de Micas continua aos saltos … novo sprint a quatro para ficar bem vincado que «o espírito perdura». Nas próximas duas linhas, a angústia veste-se de voz e faz-se ouvir por cima de kiais ainda mais altos e daquele baixo persistentemente energético. O feedback assume a angústia, a bateria engole o metrónomo e Martim faz a guitarra deslizar dor adentro. Bruno aclara a voz para enunciar o renascimento da luz, mas eram só falsas esperanças. O groove adensa-se e acelera para marcar o veredicto «Não sou nada, senão poeira» repetido à exaustão dos seus pulmões.
O início de “Ego/Cristal” repete a lógica pára-arranca, mas em esteróides. As vozes de Bruno e Micas abraçam-se e os instrumentos de Martim e Vasco fazem o mesmo. Nero oferta-nos o seu melhor breakdown. É gordo e sumarento, mas Bruno retorque, mostrando o poder dos seus guturais. Depois da tempestade, a bonança … quer dizer, na medida em que o baixo deixa acalmar! Os três instrumentos primeiro, a voz depois, respiram fundo, uma, duas, três vezes. Ui, já vi o que estão a fazer … a encher esses pulmões, não é? … a preparar o assalto final? A quatro. A a mil. Brutaaallll!
“Lótus” foge à regra anterior da dinâmica rápido-lento-rápido e assume a velocidade elevada à quarta potência … tudo no máximo, tudo a rebentar e tudo a dar caminho livre ao belíssimo trabalho de guitarra de Martim. Fenomenal! Sobretudo quando quase a meio do tema solta uma parede de som que só dá vontade de fechar os olhos e libertar o corpo numa dança frenética sem rumo até ao feedback final … «Serei para sempre um estranho ao meu olhar».
“Não é, nunca foi, nunca será” é a faixa mais curta do disco, mas os seus 1:25 devem ser suficientes para deixar os braços de Vasco, os punhos de Micas e Martim e a garganta de Bruno em chamas. No tema que mais me traz os Converge à memória, aposto que o termómetro rebentará se medirmos a temperatura ao Vasco!
Quarenta e um segundos de explosão definem o início de “31039 ORI” até que, primeiro o regresso do groove e depois a voz de Micas colocam alguma ordem na coisa! Ui … falei cedo demais, potência ao máximo, saturação nos ouvidos, a plenitude! … and now some jazz … e prego a fundo de novo. Sim, com essas botas 45! Sem medos!