Enquanto o céu ameaçava desabar sobre Lisboa, Proudhon e Mouthful of Grief levaram-nos ainda mais ao fundo do Vortex a cavalo das suas tuneladoras abrasivas e das suas vozes cavernosas.
Ele há fenómenos estranhos. Naquele início de noite da dilúvica quinta feira passada, a habitualmente célere ascensão ao solo após a terapêutica dose dupla do Vortex tomou proporções dignas da Baixa Chiado sem escadas rolantes. Não, não fui cilindrado pelo mosh, nem muito menos foram efeitos diretos da média sem álcool … Estou sim, convencido, que naquele período de quase duas horas, nos aproximámos, no mínimo dos mínimos, uns bons 5 Km do core do planeta.
O cartaz prometia Blastbeats, e Blastbeats verdadeiramente perfurantes tivemos. Daqueles de deixar a Maria Lisboa (a super tuneladora do Metropolitano, atentem … não é a outra!) verde de inveja. E se é verdade que os mineiros por detrás das baterias de Proudhon e Mouthful of Grief, deixaram o palco encharcados em suor, fuligem e terra e ainda mais ofegantes que um nadador de fim de semana após uma prova de 200 metros mariposa, será necessário considerar que o poder percussivo de ambos não é suficiente para explicar a profundidade atingida. Atenção, a proposta estética das duas bandas é diferente – já lá vou, prometo – mas a técnica perfurativa é semelhante! Aos já descritos blastbeats, junta-se a dilacerante carga da rifalhagem trituradora das guitarras e a omnipresença gloriosa e rouca dos baixos – ora martelando com a bateria, ora picando com a guitarra! No entanto, o que me ficou desta noite foi o profundo poder assolador de dois vozeirões capazes de nos cavar a alma e nos deixar bem mais perto do centro da terra.
Vindos de França, e inspirados por um dos pais do Anarquismo (daí o nome), os Proudhon presentearam-nos com uma mistura punky, personalizada e coerente de Death Metal e Grind. Um som muito assente na robustez da secção rítmica, nos riffs contínuos e super abrasivos de guitarra e nos guturais cavernais de Thomas (que também toma conta da bateria !?!?!?!). Enquanto à frente do palco se repetiam os rituais marciais do hardcore slam, o fundo da sala deixava a cabeça e os membros balançarem ao som da escavadora francesa. Intenso, massivo e sim, profundo!
A noite começou com os recém formados Mouthful of Grief, um trio português ainda sem gravações disponíveis. Na informação relativa às suas atuações ao vivo, a banda é catalogada com o rótulo Powerviolence, e se é certo que senti a presença de elementos do punk hardcore e até de algum grind, ia jurar que também tinha descortinado alguns laivos sludgy de sujidade e de algum arrasto, o que lhe confere uma camada extra de textura e agressão … mas pode ser só a minha memória a trair-me! A ver se os apanho novamente em breve, para tirar dúvidas e matar saudades.
Fotografias de Rui Gato

















