O sétimo álbum de estúdio de Poliça é um registo mais emocional e intenso do que aquele a que a banda nos habituou, com o processo de composição e gravação marcado pela doença do baixista Chris Bierden, diagnosticado com cancro.
Quando a doença aparece, a escolha pode ser a privacidade e introspeção ou o trabalho de criação. E foi a criação de um novo disco que os Poliça escolheram, um álbum desenvolvido todo ele à sombra do diagnóstico de cancro do baixista Chris Bierden. Segundo a própria divulgação do álbum, Dreams Go foi escrito e gravado com a consciência de que era uma das últimas vezes que a banda poderia trabalhar com Bierden antes de ele perder a capacidade de tocar baixo, devido ao avanço do glioblastoma.
É, por isso mesmo, um trabalho intenso e emocional e diferente daquilo a que normalmente os Poliça nos habituaram. A uma escuta exige entrega total, porque cada uma das suas oito faixas trabalha com nuances subtis que se revelam lentamente ao longo das audições.
Dreams Go, gravado no Pachyderm Studio, no Minnesota, e produzido por Ryan Olson com contribuições de Peder Mannerfelt, foi concebido num momento de grande pressão emocional para a banda e essa pressão sente-se em cada faixa, num registo mais sombrio e denso.
O álbum abre com “Carlines”, que começa com sintetizadores sombrios e batidas hipnóticas. A voz de Channy Leaneagh surge como um sussurro processado — delicada, mas marcada por uma tensão constante. Mesmo no início, percebe-se que este é de atmosferas tensas. Seguem-se faixas mais eletrónicas, como “Wound Up”, com batidas fortes e várias camadas, mas mantendo sempre a tensão. Também “Creeping” remete para o dubstep hipnótico, um exemplo claro de eletrónica minimalista.
Já em “Revival” ou “Li5a” sentimos mais emoção e um bonito equilíbrio entre densidade e leveza, como se uma luz rompesse pela noite escura. A fechar, temos “Dreams Go”, faixa título introspetiva, com uma melodia que parece simples, mas que está repleta de camadas.
Dreams Go é, na sua essência, sobre resiliência, incerteza e também inevitabilidade. A doença não está óbvia, mas latente. Os Poliça criam um ambiente envolvente, entre murmúrios e ritmos vibrantes. Este é um disco que não é de audição fácil, mas que merece ser descoberto por ser desafiante, profundo e desconcertante. Iremos ser recompensados ao descobrir as diferentes camadas em cada música, que merecem a nossa total atenção e escuta ativa.