Parece que seja em que altura for, colectivamente estamos sempre a viver um momento histórico. Com a desgraça (actual) que parece estar embrenhada na pele e no ar, poder assistir a um concerto do Patrick Watson serve como um bálsamo que nos acalma o peito.
Dotado de uma sensibilidade delicada, o canadiano Patrick Watson lançou em 2025 o seu nono álbum de estúdio, Uh Oh, e com isso a desculpa perfeita para dar dois concertos em Portugal, Porto (Casa da Música, 14 janeiro) e Lisboa (LAV, 15 janeiro).
Perante um LAV rapidamente a encher, começamos por ouvir os acordes de La Force, nome artístico de Ariel Engle, também canadiana e membro da super banda Broken Social Scene.
Foi uma primeira parte equilibrada, com um público receptivo (aplausos audíveis e até assobios de apreciação). Com o seu estilo próprio, de voz suave e melancólica, misturada com sonoridades mais electrónicas, La Force proporcionou um espectáculo íntimo e reconfortante, com alguma timidez, mas sincero e honesto. Gostámos.
Num concerto no final de 2022, Patrick Watson passou por aquilo que acreditamos ser um pesadelo para qualquer vocalista: ficou sem voz. Este problema físico iria servir como momento de pausa e reflexão, afinal, o que faz alguém que fica sem a forma mais explícita que tem para se dar a conhecer? Segundo algumas entrevistas, Watson compôs peças instrumentais e criou músicas para outros artistas. Entretanto, conseguiu recuperar a sua bonita voz, mas este processo serviu de inspiração para o seu mais recente álbum, Uh Oh (2025), onde as colaborações artísticas são prolíferas (confirmamos, o álbum tem 11 músicas e há apenas uma em que segue a solo).
Confesso que estava a pensar neste detalhe importante, enquanto aguardava expectante pelo baixar das luzes e subida em palco do músico. A dúvida pairava: seria Patrick Watson, o artista que tem uma clara relação de amor com Portugal – já deu quase uma vintena de concertos cá, capaz de cantar de peito cheio e agarrar-nos?
Não era um medo infundado, mas assim que Watson subiu ao palco, acompanhado pela sua banda (Mishka Stein, Olivier Fairfield e Ariel Engle nos vocals de apoio), este dissipou-se.
Patrick Watson é conhecido por dar bonitos concertos, cheios de cumplicidades com o público e podemos dizer que reencontrou a sua voz, bonita como sempre, capaz de inferir sentimentos, como sempre, talvez mais áspera, mas doce, como sempre.
O reportório da noite foi sobretudo do mais recente álbum e, logo nas primeiras músicas lança uma das surpresas da noite: trouxe ao palco MARO para cantar consigo a “The Wandering”, deste Uh Oh. Os aplausos foram muitos e o nível de contentamento subiu. MARO agraciou-nos com a sua magnifica voz e presença, deixou o público absolutamente rendido.
Seguiu-se um concerto cheio de músicas bonitas, com um músico descomplexado e muito conversador, claramente muito à vontade com todos (banda, público). Ouviram-se sobretudo as músicas do novo álbum, mas também houve espaço para clássicos como o “To Build a Home” e “Je te Laisserai des Mots” (que recentemente ganharam nova vida com a utilização em trends virais no Tik Tok). Não descurando o contexto actual em que vivemos, Watson referiu que não costuma de falar de política em concertos, mas que sentia a necessidade de dedicar a “To Build a Home” a todos aqueles que fazem parte da resistência e que lutam contra as injustiças.
Um outro exemplo da personalidade de Watson: contou-nos que se sente muito à vontade em Portugal, que cresceu a ouvir Madredeus, que foi sempre um país muito importante para si e que quando ficou recentemente doente em casa, aquilo que de mais sentia saudades era de Portugal. Ora, se isto não é encantador, não sei o que será. E este encanto é mútuo, a julgar pelos olhares embevecidos de quem assistia.
Foi um concerto bonito, íntimo, melancólico, com momentos de grande alegria e força, uma espécie de reencontro com um velho amigo que nos relembra que no meio do caos, ainda há coisas boas pelas quais valem a pena continuar a lutar.
Fotografias: Hugo Amaral






















