Canção do dia

“Om Shanti” – Alice Coltrane

A primeira vez que ouvi Alice Coltrane foi no programa Álbum de Família, da rádio Radar. Através da frequência modulada de 97.8MHz (Lisboa) chegou-me uma harpa como nunca tinha ouvido, uma força da natureza brilhantemente fundida com a tampura de Tulsi, o contrabaixo de Cecil McBee, o saxofone de Pharoah Sanders e a parafernália percussiva de Majid Shabazz e Rashied Ali. Do disco que falo, Journey In Satchidananda (1971), ficou-me a sonoridade misteriosa e completamente fora deste mundo.

Entretanto estamos em 2017, dez anos depois da morte de Alice Coltrane, e a editora Luaka Bop acaba de lançar o mais recente disco da artista norte-americana, marcando o início de uma série de discos dedicada à música espiritual de todo o mundo. Com o longo título World Spirituality Classics 1: The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda, o álbum compila dez gravações inéditas das últimas décadas de vida de Alice Coltrane – concretamente, gravações de cassetes privadas que circulavam dentro da comunidade vedântica fundada pela própria (o Sai Anantam Ashram, em Los Angeles). Ainda que algumas dessas cassetes fossem conhecidas do público mais dedicado, nesta compilação é possível ouvir-se a remasterização que Baker Bigsby – que, além de ter estado presente nas sessões originais, trabalhou, entre outros, com Sun Ra e John Coltrane – dirigiu, a partir das fitas originais dos anos 80 e 90. 

“Om Shanti” é mais uma longa peça que transparece essa força e mistério inabaláveis de Alice Coltrane, que aqui nos faz tremer com a sua profunda voz, um órgão contido e um coro devoto e arrepiante.