Nos dias 1 e 2 de julho, o Porto recebeu a primeira edição do NIGHT SHIFT, uma conferência internacional sobre economia e cultura noturna, promovida pela Movida da Câmara Municipal do Porto e acolhida pelo Maus Hábitos. O evento reuniu empresários, artistas, trabalhadores da noite, ativistas e decisores políticos numa tentativa rara — e urgente — de repensar a noite não apenas como consumo, mas como comunidade, infraestrutura e futuro urbano.
Há muito que a noite deixou de ser apenas entretenimento. Para quem a vive por dentro — como artista, programador, bartender, produtor, DJ ou dono de clube — a noite é trabalho, é cultura, é comunidade. E também é risco, cansaço, instabilidade. Foi a partir dessa consciência que surgiu, no Porto, o NIGHT SHIFT – Turno da Noite: um encontro internacional de dois dias para pensar a noite como parte essencial da vida urbana contemporânea.
A programação cruzou mesas-redondas, painéis e workshops com protagonistas da cena local e internacional. De empresários e ativistas a artistas e investigadores, o tom geral foi claro: se queremos uma noite mais justa, segura e sustentável, temos de olhar para o que já está a ser feito noutros lugares — e adaptar à nossa realidade.
O que podemos aprender com outras cidades
Berlim e a Clubcommission
Desde 2001, a Clubcommission atua como rede de clubes, operadores, artistas e coletivos, defendendo o reconhecimento da vida noturna como cultura. Recentemente, lançou um estudo pioneiro sobre o impacto social, económico e artístico da cultura de clube em Berlim, com dados que fundamentam políticas públicas. Porque sim — políticas culturais devem ser baseadas em evidência, e não em moralismos ou ruído mediático.
Além disso, criaram grupos de trabalho para temas específicos: consumo consciente, diversidade, formação de staff, gestão de espaço público, ruído e muito mais. A sua abordagem é clara: interseccional, descentralizada, baseada em valores como justiça social, liberdade criativa e partilha de poder.
Estudo sobre Cultura de Clube
Uma das suas ações mais emblemáticas foi o Club Culture Study, um estudo qualitativo e quantitativo sobre o impacto da cultura de clube na cidade de Berlim — não só a nível económico, mas também social, artístico e cívico. Esta investigação serviu para provar, com dados, aquilo que muitos já sabiam de forma empírica: os clubes são motores de inovação, inclusão e coesão social. São, aliás, plataformas para outras formas de arte, expressão política e construção de comunidade. Este estudo fundamenta decisões urbanísticas e políticas públicas. E é essa a chave: políticas informadas por dados e não apenas por moralismos, ruído mediático ou agendas eleitorais. Uma referência clara do que falta criar em Portugal.
Praga e a Resident Advisor
Tereza Patočková, city manager da Resident Advisor e investigadora em políticas urbanas, trouxe o olhar de quem vive e estuda a cena noturna de forma integrada. Apontou a importância de políticas feitas com base em dados locais e diálogo comunitário, como forma de resistir à gentrificação e precarização.
VibeLab: a inteligência noturna em ação
Co-fundada por Lutz Leichsenring, a VibeLab é uma agência internacional de investigação, consultoria e defesa da cultura noturna. Com sede em Berlim, a equipa atua como ponte entre governos, comunidades criativas e instituições locais, ajudando cidades a desenhar estratégias noturnas baseadas em dados, inclusão e sustentabilidade. Lutz, que também representa a histórica Berlin Clubcommission, tem sido uma das vozes mais importantes na criação de escritórios da noite em cidades como Viena, Nova Iorque, Tóquio ou Amesterdão.
As Regras de Bristol: um manifesto coletivo pela segurança
Mas foi talvez Carly Heath, Night Czar da cidade inglesa de Bristol, quem trouxe o contributo mais direto e replicável: as Bristol Rules, um conjunto de princípios simples, eficazes e partilháveis que ajudam a tornar a noite mais segura, inclusiva e consciente.
Desenhadas em conjunto com a comunidade local, estas regras não são leis — são acordos éticos entre pessoas que vivem a noite juntas. E é por isso que funcionam.
1. Out Together, Home Together – Ir juntos, voltar juntos. Cuidar dos amigos. Partilhar localização.
2. Call It Out – Ser um espetador ativo. Intervir quando há comportamentos abusivos, mesmo que discretamente.
3. Don’t Be a Creep – Respeitar o espaço e os limites do outro. Não significa não.
4. Respect Everyone – Celebrar a diversidade. Permitir que cada um se expresse como quiser — sem julgamento.
5. Take it Easy – Conhecer os próprios limites com álcool ou substâncias. Saber parar. Saber dizer não.
6. Keep Away from the Edge – Em Bristol, há muito canal e rio. A estatistica falou que perdiam cerca de 7 jovens ao ano no canal. Estar atento, sobretudo sob influência.
Estas seis orientações são fáceis de comunicar, de traduzir, de adaptar — e de incorporar em cartazes, flyers, comunicação institucional, formação de staff ou campanhas educativas. E mais do que isso: ajudam a construir uma cultura partilhada da noite, que não depende só de policiamento ou regras externas, mas de uma ética coletiva de presença e cuidado.
Se o Porto quiser verdadeiramente reinventar a noite, o primeiro passo é este: ouvir. Ouvir quem já enfrentou os mesmos problemas. Ouvir quem vive e trabalha à noite. Ouvir quem tem ferramentas para tornar a cidade mais viva e mais segura. Porque, como mostrou o NIGHT SHIFT, a mudança já começou noutras cidades, que desenvolveram especificamente modelos de governação noturna que incluem:
● awareness teams para redução de riscos e mediar conflitos nas pistas de dança,
● políticas públicas para melhorar as condições laborais do staff noturno,
● formação contínua para profissionais da noite,
● proteção contra gentrificação de clubes e centros culturais alternativos.
Agora, é a nossa vez de aprender!
Do discurso à prática: o futuro é colaborativo
A programação dividiu-se em dois dias. O primeiro focou-se no diagnóstico e nas inspirações externas:
● Mesas-redondas com artistas e comunicadores como Marta Bateira, Clara Não e DJ Farofa;
● Painéis internacionais, com especialistas em políticas noturnas de diferentes cidades;
● Sessões de inovação empresarial com agentes locais como a Musa, Fiasco e Festival Elétrico;
● E até um podcast ao vivo, cruzando tendências, práticas e desejos de quem vive a noite por dentro.
O segundo dia mergulhou na prática local. Dois painéis simultâneos juntaram gestores de espaços noturnos (Royal, Maus Hábitos, Capela Incomum…) e programadores criativos (Circuito Live, Lovers & Lollypops, Tremor) num retrato honesto da noite portuense — com todas as suas fragilidades, informalidades e urgências.
“A vida noturna é muitas vezes vivida por amor à camisola. Mas isso não paga contas. Falta valorização para quem faz acontecer: técnicos, produtores, artistas, bartenders. Precisamos de um ecossistema mais justo.” — Programador, músico independente do Porto
“A cultura não pode ser apenas um cartaz da câmara. Quando se programam concertos gratuitos com os maiores nomes do país, estamos a concorrer com estruturas que não têm como competir. Precisamos de apoiar quem realmente
sustenta a cena cultural.” — Produtor independente
“A cidade parece, por vezes, um condomínio. O que acontece numa casa afeta a outra. A experiência do cliente é importante, claro, mas temos de pensar como coletivo — perceber que fazemos parte do mesmo ecossistema.” — Miguel Camões (Royal)
“É nestes espaços que nos reconhecemos. Entre vozes e vivências tão diferentes, houve uma coisa clara: há interesse. Há vontade. Falta continuidade.” — Inês Moreira (artista)
Estes excertos não são slogans. São diagnósticos sentidos, construídos por quem vive o lado visível e invisível da noite. Revelam que o problema não está na ausência de ideias — mas na ausência de estruturas duradouras que as façam germinar.
À tarde, os workshops de co-criação trouxeram metodologias práticas para imaginar soluções concretas.
“É fácil convocar um debate amplo quando há um problema real — como quando surgiram questões de segurança em Berlim. Apareceram 150 pessoas. A nossa missão é encontrar esses pontos em comum antes do colapso.” — Lutz Leichsenring (VibeLab / Berlim)
“Falta uma escola da noite. Formação transversal para segurança, staff, programadores, mas também para o público. Porque muitas vezes, quem mais precisa de formação… é quem consome.” — Participante do público
Portugal tem uma vida noturna rica, diversa, mas profundamente desestruturada enquanto ecossistema cultural. Faltam redes entre cidades, faltam condições de trabalho dignas, faltam estratégias de redução de riscos, faltam mecanismos de escuta com o poder público. Mas não falta criatividade. Não falta energia. O NIGHT SHIFT provou isso. E provou que o caminho não passa por inventar a roda. Passa por olhar, escutar, adaptar. E sobretudo: agir. Talvez o próximo passo seja mesmo criar uma estrutura nacional inspirada na Club Commission, com representantes das casas, dos trabalhadores, dos públicos, dos coletivos, dos técnicos, dos municípios. Uma estrutura que não se limite a apagar fogos ou reagir a queixas — mas que pense a noite como parte de uma cidade viva, plural e futura.
Como escreveu a Club Commission: “Os clubes são espaços de coesão social. Por isso, comprometemo-nos com a participação equitativa e o desenvolvimento livre de todas as pessoas.”
É tempo de trazer esta visão para cá. E fazer dela realidade.