Depois do feito camoniano do seu disco de estreia homónimo, não de decassílabos mas de octossegundos, e das várias jornadas aventureiras no universo de Himiko Cloud, o segundo álbum de Memória de Peixe, o grupo está de volta com III, desta vez a trio.
Sentei-me a beber uma cerveja à espera de uns amigos quando me pus a ouvir “Good Morning”, a primeira música de III. Fiquei imediatamente deliciado com a guitarra de Miguel Nicolau, que parecia uma harpa em textura, levou-me para uma manhã de sábado, cheia de promessa do que o dia vai ser com o sol lá fora, com o entusiasmo de podermos olhar para a cara de quem gostamos e já não vemos há semanas (quem tem relações à distância poderá partilhar este sentimento). Como já fizeram em LPs passados, Memória de Peixe levam-nos numa viagem melódica e rítmica nova, a sítios ainda não explorados, com uma sonoridade própria e identidade vincada, mas sem nunca soar a mais do mesmo, atingindo um difícil equilíbrio entre novo e familiar. O disco é composto por várias faixas em que somos surpreendidos com mudanças inesperadas, como em “Peacemaker”. Como a arma com que partilha o nome, começamos por abrir o coldre, criando a antecipação do esperado e aí vem o tiro sob a forma de riff electrónico que penetra qualquer protecção e puxa aquele fio dentro de nós que faz a nossa cara contorcer enquanto o nosso interior vibra em uníssono com o que está a ser tocado.
Este novo som de trio é mais redondo ao ouvido, usando uma simplicidade complexa para elevar o que já foi feito sem darmos conta do que está a acontecer. Porém, não nos deixemos enganar, III não é só emoções bonitas e sonoridades diatónicas. Em “3:13”, dizem “Chega de sentimentos suaves”. Com uma participação irrepreensível de José Soares no saxofone, entramos no registo mais jazzy mas também mais agressivo do grupo. Este que é um dos singles, com todo o direito a tal, remete para a sonoridade de discos passados, em especial Himiko Cloud. Sabe sempre bem um toque de nostalgia quando ouvimos um projecto novo, um abraço de um velho amigo que nos está a apresentar um novo. Seguindo este conforto, entramos em “Under the Sea”, com participação de Norberto Lobo, que me remonta a outro velho amigo que já não vejo faz tempo, Fumo Ninja.
Em “El Vuelo”, viajamos pelo ar com vozes etéreas e um progressivo crescendo, não só nos acordes como no ritmo e faz desejar mais vozes no resto do álbum. Como uma amiga minha me disse, “Quero fazer parte desta música, quero cantar com eles”. Todos os bons álbuns têm um elo condutor na sua narrativa e “Close Encounters” serve de marcador para mudança de energia, entrando em “Coincidentia”, que marca, a par de “3:13”, um momento de mais acção nesta história.
Não sei a que é que Miguel Nicolau diz “Not Tonight”, mas esta faixa marca ainda outra perspectiva sobre esta identidade sonora, trazendo laivos de King Krule, melancólicos, arrítmicos e pesados sobre uma voz distorcida que partilha mais sentimento que palavras. Ainda remetendo a ideia recorrente deste disco de surpresas, a voz estilo ópera em “The Sun Inside Your Eyes” traz uma lufada de ar fresco, tal como a progressão de movimentos dentro de uma só música, possivelmente a minha favorita deste álbum.
Como todas as histórias merecem um bom fim, não seriam elas boas se assim não fosse, temos um lado mais clássico e calmo com “Golden Fiasco” para nos trazer de volta à cama e nos embalar para “Good Night”, que faz um apanhado da nossa viagem desde que dissemos “Good Morning”, escrevendo no nosso diário as aventuras maravilhosas que ouvimos hoje. Fala-se do difícil terceiro disco, mas acho que nunca avisaram os Memória de Peixe disso. Fico feliz de saber que temos mais uma obra para mostrar que se continua a fazer boa música em Portugal, sejam singles isolados ou álbuns dignos desse nome. Miguel Nicolau, Filipe Louro e Pedro Melo Alves deixam-me apenas a desejar que houvesse mais para ouvir.