Numa noite fria em Lisboa, Mary Ocher vem aquecer corações, esboçar sorrisos e fazer-nos pensar sobre o mundo e como nos conectamos com quem nos rodeia.
Há, realmente, experiências que são únicas às nossas vivências. Estava a comer uma sandes de pataniscas de bacalhau e uma sopa de espinafres num conhecido estabelecimento da Praça do Chile quando decidi parar de ouvir a conversa circular dos meus camaradas de balcão sobre o clima político atual, que se recomenda menos que o meteorológico, e peguei nos headphones para ouvir Mary Ocher. Aposto dinheiro como nunca alguém ouviu o seu último álbum Your Guide to Revolution a comer uma sandes como a minha.
Jantar comido, segui caminho para a Zé dos Bois, expectante do que a noite prometia. Admito que até o dia anterior não conhecia mais que o seu nome, mas a magia da vida também é o inesperado. Chego cedo, bebo uma cerveja e pondero o quão maravilhoso é poder ouvir algo que nunca ouvimos antes.
Chegada a hora, dirijo-me ao aquário onde começa a tocar Manila. Não poderia faltar a clássica maldição da banda de abertura: uma sala quase nua, no entanto vestida com o essencial: amigos e fãs garridos. Ao fim da primeira música já a sala estava de casacos e tive de tirar o meu. Com um soul sentido, a banda foi conseguindo conquistar o espaço e os dance moves da plateia. Um concerto curto que foi crescendo entre quem os via. Por volta do meio do concerto, após um bonito dueto entre um piano e uma voz, o pai do teclista da banda fez uma aparição surpresa para tocar saxofone com o filho e os amigos. Uma noite abençoada por família, amigos, músicas novas e outras nem tanto e, mais importante, um lindo cão que nos brindou a todos com um sorriso. Faz-se o pit stop, trocam-se os pneus do piano e atesta-se o combustível dos microfones para preparar a saída da segunda parte.
Mary Ocher entra em palco pela plateia, de tote bag em riste e, sem bom dia ou boa noite, começa um som oscilante que silencia o público. “My dear, there’s nothing left to conquer here, not even your prejudice” ouvimos nós, em repetição, um mantra de voz e de teclado. Uma projecção aparentemente estável atrás de Mary começa a desregular-se em caos com a introdução de um novo beat. Mary pega na flauta e, com uma combinação de berros de libertação e sopros, tanto na flauta como sem ela, cria ritmos e texturas que complementam o beat, sonificando a projecção errática de fundo. A energia desta performance era tal que, no fim da música, a guitarra, que estava tão inocentemente quieta como os carris alternativos do famoso trolley problem, ficou sem cabo e ia caindo do seu suporte. Ouve-se estática e Mary, com um perfil quase Mr. Beaniano, recompõe a cena com boa disposição e graça.
Se há algo que não lhe falta é sentido de humor, que se sente em todas as suas intervenções. “I just came back from touring in North America and it was awful… it’s fuuucked” diz enquanto se organiza em palco. Pega na sofrida guitarra e entramos na fase folk da sua música, onde senti tudo o que ela tinha para dizer, como em “Mother why did you have me i’m as useless as a parasite”, outro mantra repetido até à exaustão. Com este público pesado, carregado emocionalmente, Mary tenta aliviar os ânimos abrindo o segundo momento de problemas técnicos da noite, nada dos seus sintetizadores funciona. Na minha cabeça surge a piada, “quantos técnicos de som são precisos para arranjar um sintetizador?”. Mary salta para o piano e canta sobre os “thousand dreams that are haunting me”. Outra canção assustadoramente linda, que nos percorre da pele ao fundo do que é sentir. Seguindo no piano, vamos para uma música nova, de um álbum de piano que há de sair, esperançosamente, no fim deste ano. Uma música sobre guerra e, como a própria o põe, “I like to write about fun topics like war”. Será de esperar esta leveza acompanhada de uma grande bagagem histórica na sua voz, Mary nasceu na Rússia e cresceu em Tel Aviv, dois sítios em que, de acordo com ela, não é bem vinda.
Entramos no primeiro momento interactivo da noite, uma votação: “Would you like the synths or karaoke now? Both at the same time?” pergunta ela. Ganharam os já recuperados sintetizadores, embora a advertência que o karaoke é mais divertido. Entre muitos fios, computadores e aparelhos vários, ouvimos diferentes faixas e, entre elas, “Sympathise”, o single do último álbum Your Guide to Revolution. Entre uma chuva de metralhadoras projectada e letras mal sincronizadas que a própria fez num tempo morto de espera, o público canta “we are a chain” em uníssono, primeiro tímido depois altivamente. Cantámos, rimos e gritámos. O palco estendia-se aos técnicos de som no fim da sala.
Ouve-se alguém a gritar por uma música do seu primeiro álbum e Mary pede desculpa, diz que só não toca porque já não se lembra de como é. Entre momentos de guitarra mais folk e outros mais punk, acompanhados de uma pandeireta tocada com o pé, chegamos ao fim do concerto com Thunderbird. Antes da última música, Mary delicia-nos com mais um momento de comédia com a apresentação do seu merch, qual montra final do Preço Certo em euros. Fernando Mendes, põe os olhos. Repito-me, que maravilha é podermos ouvir e ver coisas pela primeira vez, conhecer algo novo. Que este texto sirva de motivação para irem às vossas casas de espetáculos independentes, aquelas que têm sempre nomes pouco reconhecíveis no cartaz, e ouçam algo novo. Ganha-se mais vezes do que se perde. Termino com a mensagem essencial, que está belissimamente escrita no tote bag que comprei à Mary:
Techno is shit
Listen to Mary Ocher
Fotografias de Beatriz Pequeno











