Kaitlyn Aurelia Smith deixa-nos exatamente onde quer: suspensos entre o sonho e o ruído, entre a máquina e o humano.
Domingo à noite, a Casa Capitão abriu-nos as portas e, logo à entrada, somos recebidos por um gato preto, muito fofo, que, segundo nos dizem, “adotou” o espaço. Um bom presságio para a noite que se adivinhava íntima e curiosa. O novo local é bonito, amplo e luminoso e transmite uma sensação de frescura, de recomeço.
No meio das luzes azuis e fumo branco, surge Kaitlyn Aurelia Smith. Figura discreta, rodeada pelos seus sintetizadores e com um microfone de cabeça (acho que nunca tinha visto um concerto com alguém com este tipo de micro, em concerto), parece mais uma exploradora de som, do que apenas artista. O ambiente, tal como o público, é descontraído e Kaitlyn é recebida com palmas e vontade de a ouvir e dançar. Com pouca rede nos telemóveis, a contrapor com muita vibração no ar, vai crescendo o sentimento de liberdade em poder, simplesmente, deixar o mundo lá fora e mergulhar na eletrónica suave, desconstruída, quase líquida.
Os sons de Kaitlyn Aurelia Smith são quentes, diríamos até sensuais, e a sua voz, rouca e envolvente, mistura-se com camadas de som que oscilam entre o sonho e a hipnose. Mais do que um concerto, parece uma meditação feita de botões e impulsos sonoros. A diferença para um DJ set talvez resida precisamente aí: ela canta, mas também explora, dança e manipula os sintetizadores modulares como quem conversa com eles.
Há momentos em que o espaço se transforma numa espécie de discoteca contemplativa, onde o corpo quer mover-se, mas a mente fica suspensa. Pena que o encanto seja, por vezes, quebrado pelos “expats” (ou turistas) faladores que não sabem calar-se, o tipo de público que corta a vibe e que nos faz desejar accionar um botão de “mute”.
A artista, contudo, mantém-se serena. Não fala muito; deixa a música falar por si. O concerto terminou, sem encore. Honestamente, bem feita para os distraídos (os expats/turistas anteriores) que perguntam “is it over?” como se não tivessem passado o concerto inteiro a conversar. Ela agradece com timidez, mas com classe, e sai de cena.
Ficamos com a sensação de ter assistido a algo raro: uma artista que não precisa de excessos nem de grandes gestos para criar uma experiência imersiva e graciosa. Kaitlyn Aurelia Smith deixa-nos exatamente onde quer: suspensos entre o sonho e o ruído, entre a máquina e o humano.
Fotografias: Francisco Fidalgo









