Inês Marques Lucas celebrou no Musicbox os seus 30 anos e o momento de viragem na carreira que está a construir, revisitando as canções do seu primeiro disco e chamando o verão e as coisas boas que estão por vir com várias canções novas.
Inês Marques Lucas pode ainda não se ter libertado totalmente do seu estatuto de ilustre desconhecida, mas parece estar cada vez mais perto de o conseguir. Devagar, mas com segurança, o nome da oeirense tem-se vindo a imiscuir nas conversas de quem presta alguma atenção à música feita em Portugal – desde uma participação no The Voice em 2021, passando pela estreia a solo em 2023 com o álbum Horas Mortas, cheio de canções bem produzidas e cantadas em português, até uma passagem pelo Festival da Canção deste ano onde (injustamente) não conseguiu chegar à final, Inês parece estar a conseguir em pouco tempo cimentar uma respeitável carreira. Para além de tudo isto, tem também uma presença online acolhedora e genuína, onde equilibra bem posts profissionais com conteúdo menos produzido e gravado em casa, mostrando que sabe jogar de acordo com as regras do algoritmo e, sobretudo, garantido que, mesmo sem querer nem sabendo bem como, todos já ouvimos falar dela.
Tudo isto passou pela cabeça desta vossa escriba quando teve dificuldade em aceder à sala do Musicbox onde Inês se apresentou com a sua banda há uma semana, por esta estar esgotada e com pessoas a ocupar o espaço até à porta. No rescaldo do festival da canção, seria fácil atribuir a atenção ao hype momentâneo criado por este fenómeno mediático. Mas teria Inês Marques Lucas esgotado um Musicbox (e também um Salão Brazil, em Coimbra) só à boleia do certame da RTP? Vejamos.
Inês deu o mote para o ambiente da noite quase desde que o concerto começou. Simpática e conversadora, apresentou cada uma das suas canções partilhando histórias sobre o seu significado ou sobre o lugar em que estava quando as fez. Este detalhe, alavancado pela confiança com que a cantautora ocupa o palco, tão confortável como se estivesse, lá está, no seu próprio quarto – profissional, mas genuína, tal como no seu Instagram – tornou a sala lisboeta num lugar quase intimista.
Num alinhamento dominado pelo seu álbum de estreia, como não podia deixar de ser, houve ainda tempo para mostrar os singles mais recentes – “Curto-circuito”, de 2024 e a candidata a canção eurovisiva “Quantos Queres” – assim como para apresentar várias canções ainda por lançar. Dos temas mais antigos, “9 às 6” soou libertadora, já que Inês confessou, no fim, que planeia despedir-se do trabalho que a levou a escrever a canção, confirmando assim a sensação de que a sua carreira está mesmo num ponto de viragem (e ainda bem). “Sofá”, uma das canções favoritas da artista, como nos disse a própria, revelou-se também uma das canções favoritas do público do Musicbox, para quem o quase-medley feito entre esta canção e as duas seguintes, “Pago a Renda em Canções” e “Curto-circuito”, foi o fim de festa perfeito.
Pelo meio do set ouvimos “O Que Serás”, a primeira canção que escreveu em português, mas que nunca chegou a lançar e que interpretou a solo, assim como “São Precisos Dois Para Dançar o Tango”, também tocada a solo com a ajuda de efeitos que distorceram a voz da cantora e de coros emprestados pela plateia. Houve ainda tempo para soprar as velas de um bolo de 30 anos (já estive em festas de anos piores) já que este concerto era também sobre a chegada de Inês a esta idade marcante – “Já estou a gostar muito deste ano” – disse-nos feliz. De destacar foi também a prestação da, pelos vistos, multi-instrumentista, que trocou a guitarra pela flauta transversal para acompanhar, entre outras, a também nova “Cara de Gin Tónico”. Porém, a surpresa da noite foi a forma como Inês e a sua equipa montaram, em poucos minutos, a infraestrutura necessária para gravar, logo ali, aquele que será o videoclipe de mais uma canção nova, “Saltamos Daqui”. Com câmaras a captar de vários ângulos e instruções dadas ao público, Inês deu ainda mais de si na estreia desta sua música e saltou dali (do palco) para um stage dive que a levou quase até ao fundo da sala.
Acompanhada pela sua banda – Ned Flanger, Chico Na Batera e Choro, que produziu o seu disco – Inês Marques Lucas celebrou no Musicbox este momento de viragem da sua vida e na sua carreira, revisitando as canções do seu primeiro disco e chamando o verão e as coisas boas que estão por vir com várias canções novas, todas elas muito bem recebidas pela acolhedora plateia. Passou depressa de mais esta festa de 30 anos, e a canção do festival acabou por ser apenas um momento no meio de tantos outros bem conseguidos, num concerto bem planeado e muito bem executado, desde à setlist, à decoração e até às aventuras menos usuais como o bolo de anos ou a gravação de um videoclipe para uma das músicas novas. Ficaremos, portanto, atentos ao que Inês Marques Lucas terá para nos mostrar a seguir.
Fotografias de Catarina Peixoto cedidas pela organização



